O México está determinado a reduzir sua dependência de importações de energia. Enquanto o governo avalia possíveis estratégias, a presidente Claudia Sheinbaum convocou um grupo de cientistas para avaliar uma opção “sustentável” de fraturamento hidráulico de gás não convencional — mais conhecido como fracking.
A proposta foi recebida com ceticismo por especialistas, ativistas e moradores de áreas que já foram afetadas pela extração de petróleo e gás no país. Eles questionam as evidências disponíveis e a viabilidade econômica do método que promete minimizar danos ambientais.
“O fraturamento hidráulico, sem dúvida, compromete a disponibilidade de água para uso humano, a fertilidade do solo, a saúde das comunidades e a integridade dos ecossistemas”, disse Carla Flores Lot, da organização mexicana CartoCrítica, ao Dialogue Earth. Ela acrescentou que o fracking provoca terremotos que podem comprometer a estabilidade de construções do entorno.
O fraturamento hidráulico consiste na perfuração de poços nos quais são injetados milhões de litros de água doce, areia e produtos químicos para extrair hidrocarbonetos (geralmente gás ou petróleo) presos nas rochas. Estudos sugerem que esses produtos químicos e os riscos de vazamento ligados a eles ameaçam o meio ambiente e a saúde humana.
Em abril, Sheinbaum anunciou que uma comissão científica do governo mexicano vai explorar alternativas ao fracking convencional, analisando possilibidades como a de substituir a água doce por outras substâncias, reutilizar a “água produzida” — termo usado para qualquer água extraída da terra juntamente com os hidrocarbonetos — e usar tecnologias de ponta para evitar vazamentos de aquíferos.
Na ocasião, Sheinbaum defendeu que o fracking pode ser realizado com produtos químicos orgânicos, causando menos impactos ambientais. “Se vamos explorar o gás não convencional, isso tem que ser feito de forma sustentável”, afirmou.
Custo elevado, escassez de água
A ideia de fracking sustentável entra em choque com as realidades hidrológica e econômica do México, segundo especialistas consultados pelo Dialogue Earth.
O Conselho Nacional de Humanidades, Ciências e Tecnologias do México mostrou que, para extrair apenas 10% do petróleo e gás do país por fracking, seriam necessários 14,5 mil poços.
O conselho aponta ainda que 37% dessa demanda hídrica ocorreria em áreas que já enfrentam escassez crítica. Manuel Llano, diretor da CartoCrítica, comentou que o número de poços necessários exigiria mais água do que a disponível nas bacias e aquíferos da região.
Para Luca Ferrari, especialista regional em geologia e sistemas energéticos, os métodos que reutilizam água são mais caros devido a seus processos de purificação. “Na prática, o uso de água reciclada não é muito comum porque custa caro, mesmo nos Estados Unidos, onde fazem isso há 20 anos e já tentaram de tudo”.
Um estudo explorou a viabilidade da reutilização da água produzida no estado do Novo México, nos EUA, sugerindo aplicações na agricultura. Ambientalistas locais, no entanto, rejeitaram a proposta porque as evidências científicas sobre o tratamento seguro da água produzida em larga escala ainda são inconclusivas.
Outro estudo publicado em 2018 pela Universidade Nacional do Comahue, na Argentina, constatou que o processo de tratamento da água produzida é “muito caro”.
Na China, empresas começaram a usar CO2 na fraturação hidráulica. Esse método reduz a necessidade de água potável, mas não é tão comum em outros países.
Ferrari e Llano afirmam que o fracking no México também exigiria a importação de equipamentos e materiais dos EUA, o que, somado ao alto custo da reutilização da água, tornaria o processo economicamente inviável.
Soberania energética
Em meio aos desdobramentos do conflito no Golfo Pérsico, com interrupções no comércio global de óleo e gás, a pressão de Sheinbaum pelo fracking ganhou força. A especialista em energia Aleida Azamar, professora da Universidade Autônoma Metropolitana do México, explicou que o país é altamente dependente das importações de gás dos EUA, que abastecem 75% do consumo de gás mexicano, de acordo com o Ministério da Energia.
O bloqueio no Estreito de Ormuz, importante via de passagem para o comércio de petróleo, levou à flutuação dos preços e ligou o alerta para os riscos da dependência energética.
O México consome cerca de 271 milhões de metros cúbicos de gás por mês, dos quais 206 milhões são importados, segundo dados do governo. A Administração de Informação Energética dos EUA também registra um aumento contínuo nas importações anuais, passando de 63 bilhões de metros cúbicos em 2023 para 68 bilhões em 2025.
Com o fracking, a estatal mexicana Pemex tenta alcançar um aumento gradual na produção de gás, atingindo 243 milhões de metros cúbicos por dia até 2035.
É uma medida ilógica apostar na construção da infraestrutura para o frackingAleida Azamar, especialista em energia e professora da Universidade Autônoma Metropolitana
Outros países latino-americanos têm ampliado seus investimentos na descarbonização do setor energético, muitas vezes com o apoio financeiro de empresas chinesas. O México, por sua vez, firmou o compromisso de aumentar a participação das energias renováveis em sua matriz energética de 24% para 38% até 2030, mas o investimento da China tem sido limitado tanto pela pressão dos EUA quanto pela política mexicana de favorecer estatais nacionais.
Azamar considerou “uma medida ilógica” apostar na construção de infraestrutura para o fracking, “justamente quando os custos da energia solar, eólica e de outras fontes renováveis já são mais baixos do que os do gás”.
Resistência ao fracking
Desde que o partido Morena chegou ao poder em 2018, o México se posicionou contra o fracking. Em 2024, o então presidente Andrés Manuel López Obrador enviou um projeto de lei ao Congresso para proibi-lo. Porém, o projeto não avançou até o fim da legislatura e foi substituído por outro do governo Sheinbaum no fim daquele ano.
Até 2019, mais de 8,4 mil poços de óleo e gás no México registraram atividade de fraturamento hidráulico, segundo a agora extinta Comissão Nacional de Hidrocarbonetos.
A própria Sheinbaum é uma cientista especializada em mudanças climáticas e, como líder do Morena, também já se opôs ao fracking no passado. A mudança de postura da presidente gerou desconfiança em várias comunidades.
Moradores do povoado Reforma Escolín, em Veracruz, dizem que o fraturamento hidráulico secou nascentes e riachos, forçando-os a depender de caminhões-pipa e água engarrafada. A ativista local Pastora Garcia disse que “as pessoas estão sofrendo” com a falta d’água e teme que a situação piore se o governo expandir o fraturamento hidráulico.
Produtores da comunidade de Rafael Rosas, localizada em uma área com alto potencial para fraturamento hidráulico, também desconfiam da mudança no discurso de Sheinbaum. Historicamente, as propriedades agrícolas da região são afetadas por derramamentos de petróleo da Pemex.
Gloria Domínguez é uma das agricultoras cujas terras foram devastadas pelos últimos vazamentos (não relacionados ao fracking): “Eles estão violando nossos direitos, porque também temos direito a uma vida digna, uma vida saudável e um ambiente saudável”.

