Clima

Presidente da COP30: Ação climática não pode esperar por consenso

Em entrevista ao Dialogue Earth, André Corrêa do Lago diz que a busca por consenso pode travar avanços na ação climática e defende iniciativas paralelas para acelerar a implementação
<p>André Corrêa do Lago, presidente da COP30, chamou países a avançar na implementação dos compromissos climáticos acordados em meio a divisões e tensões políticas (Imagem: <a href="https://www.flickr.com/photos/unfccc/54937951521/in/dateposted/">Kiara Worth</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/unfccc">UN Climate Change</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/deed.en">CC BY NC SA</a>)</p>

André Corrêa do Lago, presidente da COP30, chamou países a avançar na implementação dos compromissos climáticos acordados em meio a divisões e tensões políticas (Imagem: Kiara Worth / UN Climate Change, CC BY NC SA)

À medida que os consensos para as ações climáticas ficam mais distantes, o mundo deve parar de esperar pelo resultado de negociações e começar a implementar o que já foi acordado.

Essa é a avaliação do diplomata brasileiro André Corrêa do Lago. Presidente da COP30, realizada em Belém do Pará em 2025, ele permanece à frente da principal conferência climática da ONU até a próxima edição, a COP31, em novembro, quando a Turquia assume a presidência.

Corrêa do Lago disse ao Dialogue Earth que a diplomacia climática precisa dar mais ênfase à agenda de ação e cooperação entre grupos de países, empresas e cidades: “Para decisões, é preciso consenso; para a implementação, não”.

Ele destacou ainda o “importante desafio” representado pela saída dos Estados Unidos de acordos climáticos no início do ano e alertou para a crescente resistência de diferentes atores em arcar com os custos da ação climática.

Na COP30, países concordaram com a meta de triplicar o financiamento para a adaptação às mudanças climáticas e criaram um mecanismo de “transição justa” para garantir que trabalhadores e comunidades não sejam ignorados no processo. No entanto, a conferência não chegou a um consenso sobre a eliminação dos combustíveis fósseis nem sobre o combate ao desmatamento.

Via de regra, as negociações da ONU sobre o clima buscam um consenso entre os quase 200 países signatários, conferindo legitimidade aos acordos resultantes, mas tornando o progresso lento e politicamente complexo. Corrêa do Lago disse que o maior avanço na COP30 foi garantir uma separação mais clara entre implementação e negociação.

“[O consenso] é maravilhoso, porque confere uma enorme força ao que é aprovado”, explicou. “Mas também é uma forma de impedir que algumas coisas avancem”.

Além do consenso

Corrêa do Lago aponta que os países podem agir de acordo com suas próprias circunstâncias e em linha com o que já foi acordado. Enquanto isso, coalizões menores de nações com interesses semelhantes podem avançar juntas em temas como a transição energética ou o desmatamento.

“Há muitos jeitos de fazer a coisa certa”, disse Corrêa do Lago. “E, conforme o país, isso pode representar algo completamente diferente”.

Um foco maior em implementação é essencial, diz ele, porque o tempo para combater o aquecimento global está se esgotando. “Acreditamos muito na ciência”, disse Corrêa do Lago. “E a ciência está nos dizendo que temos muito pouco tempo”.

Esse enfoque também pode dar andamento à ação diante de divisões políticas que dificultam a cooperação internacional. Em janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a retirada da maior economia do mundo de 66 organismos internacionais, incluindo vários voltados ao clima, à biodiversidade e à energia.

Corrêa do Lago disse que o papel do país como grande emissor, bem como fonte de soluções tecnológicas, empresariais e da sociedade civil, torna isso “obviamente um desafio importante”. Mas ressaltou que a ação climática no país vai muito além do governo federal.

Há muitos jeitos de fazer a coisa certa. E, conforme o país, isso pode representar algo completamente diferente

“Uma coisa é o que o governo diz, e outra é o que as comunidades, as empresas e os cientistas fazem”, afirmou o diplomata. 

Enquanto as negociações são prerrogativa dos governos, todos podem agir, incluindo empresas, universidades, cientistas ou autoridades de todo um estado, como a Califórnia, acrescentou ele.

Ele defende, sobretudo, trabalhar na implementação das medidas climáticas já acordadas.

Vários acordos resultantes de cúpulas do clima anteriores não foram plenamente cumpridos, entre eles o compromisso assumido na COP26, em 2021, de dobrar os recursos para adaptação climática até 2025. Ao mesmo tempo, novas licenças para a exploração de petróleo e gás continuam sendo aprovadas, apesar do acordo da COP28 de afastar as economias dos combustíveis fósseis.

Essa estratégia também poderia ajudar a conter a crescente ofensiva contra essa agenda, disse ele. Embora as tentativas de desacreditar a ciência do clima não sejam novas, Corrêa do Lago citou um movimento que questiona, pela lógica econômica, o enfrentamento da crise.

“Acho que isto talvez seja ainda mais perigoso”, observou.

As ações climáticas são frequentemente relegadas a segundo plano na agenda de países que enfrentam crises econômicas e de segurança. No Brasil, por exemplo, o governo quer projetar o país como um líder climático, enquanto prioriza políticas para o avanço de operações de combustíveis fósseis, gerando conflito com suas próprias metas de redução de emissões.

Em países do Norte Global, grupos conservadores também passam a questionar com mais frequência conceitos amplamente usados no debate climático ou simplesmente buscam obstruir as discussões.

“Primeiro foi um questionamento da ciência, depois um questionamento da solução”, resumiu Corrêa do Lago. “O foco na implementação nos dá exemplos de que as soluções econômicas funcionam”.

‘Mapas do caminho’ e contradições

Após a realização da COP30, Corrêa do Lago segue promovendo dois mapas do caminho: um visando à redução do desmatamento e outro sobre transição energética. São iniciativas paralelas, baseadas em compromissos já existentes e atualmente abertas a contribuições de governos e outros atores.

“Decidimos elaborar ‘mapas de caminho’ independentes para avançar nessas questões. A ideia é reunir elementos que ajudem os países a, talvez em algum momento, encontrar um consenso”.

Isso se soma ao compromisso da COP29 de desenvolver um plano para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035, o que Corrêa do Lago também busca avançar.

Em fevereiro, para promover essas iniciativas, Corrêa do Lago visitou a Turquia, cuja cidade costeira de Antalya, vai receber a COP31. Após uma longa disputa pela presidência, a Austrália ficou responsável por liderar as pré-negociações com os países do Pacífico.

Simon Stiell (à esquerda), secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas; Murat Kurum, futuro presidente da COP31 e ministro de Meio Ambiente da Turquia; e o embaixador André Corrêa do Lago (à direita), presidente da COP30
Simon Stiell (à esquerda), secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas; Murat Kurum, futuro presidente da COP31 e ministro de Meio Ambiente da Turquia; e o embaixador André Corrêa do Lago (à direita), presidente da COP30 (Imagem: UN Climate Change / Flickr, CC BY NC SA)

Enquanto isso, o Brasil trabalha em seu próprio “mapa do caminho”, buscando traduzir sua liderança climática em uma transição “justa e planejada”, como prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro, logo após a COP30. O plano era esperado para o início de fevereiro, mas ainda não foi divulgado.

O Observatório do Clima, uma coalizão de organizações da sociedade civil, fez críticas tanto ao plano do governo quanto às iniciativas da COP30. Em uma carta dirigida a Corrêa do Lago, alertou para o risco de esses planos se tornarem “mais um documento destinado a acumular poeira”. Em paralelo, uma recomendação sobre o plano nacional considerou “contraditórias” as políticas de descarbonização do país e rejeitou a lógica de que a expansão da produção petrolífera pode financiar a transição energética – argumento defendido por Lula.

Para Corrêa do Lago, tais contradições não são exclusivas do Brasil. “Nenhum país tem uma visão unificada de como avançar nessa agenda”, disse, observando que os governos costumam ter ministérios com prioridades conflitantes. Ele acrescentou que a dependência econômica dos combustíveis fósseis impõe alternativas limitadas: “Talvez precisemos dessas receitas, porque ainda não encontramos outras formas de financiar a transição”.

A agenda da COP30 enfrenta ainda um potencial rival — ou aliado — na Colômbia. Em abril, a cidade de Santa Marta, na costa caribenha do país, sediará a Primeira Conferência sobre a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis, iniciativa liderada por Colômbia e Holanda. Embora o encontro ocorra fora do sistema da ONU, ele gera expectativas sobre os rumos das negociações climáticas.

Corrêa do Lago observou que o nome original do evento mencionava “phasing out”, ou eliminação, dos combustíveis fósseis, mas depois foi substituído por “transitioning away”, ou distanciamento, dos fósseis — um jogo de palavras que também moldou as negociações da COP.

Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva com seu homólogo colombiano, Gustavo Petro
Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva com seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, em reunião bilateral realizada em março. Em abril, a Colômbia sediará a Primeira Conferência sobre a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis (Imagem: Juan Cano / Presidência da Colômbia, PDM)

“Não somos nós contra eles”, acrescentou. “Será muito interessante ver o que acontecerá em Santa Marta. São processos complementares, mas paralelos”.

De olho na COP31, Corrêa do Lago está otimista de que o foco na implementação das ações climáticas seguirá avançando.

“Conversamos bastante com a Turquia e a Austrália, e uma das coisas que eles já incorporaram, e que acho muito importante, é essa nova estrutura da agenda de ação, baseada na implementação”, disse ele. “Se temos pouco tempo, devemos explorar todas as soluções ao máximo”.

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