Negócios

Peru equilibra interesses entre China e Estados Unidos

Enquanto superpotências disputam influência em setores como infraestrutura e mineração, proteções ambientais no país andino ficam em segundo plano
<p>Em fevereiro de 2026, presidente peruano José Jerí (ao centro) é destituído do cargo em meio a acusações de corrupção (Imagem: <a href="https://www.flickr.com/photos/presidenciaperu/54994120254/in/album-72177720331036244">Presidência do Peru</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/presidenciaperu/">Flickr</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/deed.en">CC BY NC SA</a>)</p>

Em fevereiro de 2026, presidente peruano José Jerí (ao centro) é destituído do cargo em meio a acusações de corrupção (Imagem: Presidência do Peru / Flickr, CC BY NC SA)

Em janeiro, quando circularam os primeiros vídeos do então presidente peruano José Jerí em reuniões noturnas não oficiais com o empresário chinês Yang Zhihua, o país sabia que um novo escândalo político havia estourado. 

Batizado de Chifagate, em referência aos restaurantes de comida sino-peruana onde ocorreram as reuniões clandestinas, o caso foi usado como combustível para o Congresso derrubar o mandatário em fevereiro, já que a lei peruana exige que essas reuniões sejam documentadas. Antes de Jerí, Dina Boluarte (2022-2025) e Pedro Castillo (2021-2022) já haviam sido destituídos do cargo no mesmo mandato, por outros motivos. 

Em 12 de abril, os peruanos vão às urnas para preencher novamente o cargo máximo da nação, que passou pelas mãos de oito presidentes na última década e atualmente é ocupado por José María Balcázar.

O Chifagate reacendeu o debate sobre a crescente influência de investidores chineses no Peru. Yang é um dos empresários que vêm estreitando os laços entre os dois países desde os anos 1990. Sua empresa detém a concessão para construir uma hidrelétrica no rio Pachachaca, em Abancay, cuja entrega, antes prevista para este ano, foi adiada após a concessionária solicitar uma prorrogação de três anos durante reuniões com Jerí.

Empresas chinesas tornaram-se centrais nos setores de mineração, energia e infraestrutura no Peru. O caso mais emblemático é o megaporto de Chancay, próximo a Lima, que já desperta preocupação nos EUA diante da expansão da influência chinesa na região.

Além das implicações geopolíticas, esses empreendimentos avançam sobre algumas das áreas mais ecologicamente sensíveis do Peru. Pesquisas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e de organizações socioambientais mostraram que a falta de governança prejudicou a fiscalização ambiental, especialmente de indústrias extrativas.

Décadas de corrupção

Há anos, o Peru está mergulhado em uma sequência de turbulências políticas, com vários presidentes investigados, processados ou condenados por corrupção.

O primeiro deles foi Alberto Fujimori, destituído do cargo em 2000, que passou 16 anos na prisão por violações aos direitos humanos e crimes de corrupção. Fujimori morreu em 2024.

Quatro de seus sucessores estiveram envolvidos na versão peruana da operação Lava Jato, focada nos esquemas de suborno da empreiteira brasileira Odebrecht (atual Novonor).

Castillo, eleito em 2021, também foi investigado por irregularidades em obras públicas. Após ser destituído e condenado por tentar dissolver o Congresso à força, dois de seus sucessores também não concluíram o mandato.

Para José Luis Gargurevich, diretor-executivo da organização Proética, o equilíbrio entre os poderes do Estado se rompeu: “A instabilidade política mostra que qualquer congressista pode se tornar presidente amanhã. O Congresso acumulou um poder desproporcional”.

Com um índice de rejeição de 85%, o Congresso também é visto como a instituição mais corrupta do país, segundo uma pesquisa da Proética realizada no ano passado com 1,3 mil peruanos residentes em áreas urbanas. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025 da Transparência Internacional, o Peru ocupa a 130ª posição entre 182 países.

Crescem investimentos da China

Apesar das múltiplas crises políticas, as empresas chinesas seguem investindo pesado no Peru. “A China tem uma visão de longo prazo, e a turbulência política do Peru não as preocupa necessariamente”, afirmou Cynthia Sanborn, diretora do Centro de Estudos da China e da Ásia-Pacífico, da Universidade do Pacífico, em Lima.

O país asiático tornou-se o principal parceiro comercial do Peru nas últimas décadas. Segundo dados da Universidade do Pacífico analisados pelo Dialogue Earth, os US$ 27,9 bilhões investidos em 2023 representaram 21% do total de investimento estrangeiro no país. A mineração lidera, com 47% desse montante.

A presença de estatais chinesas começou em 1992, quando a Shougang comprou a peruana Hierro Perú. O negócio deu origem à Shougang Hierro Perú, e desde então, já investiu mais de US$ 2,25 bilhões na exploração e produção de minério de ferro.

A relação entre os dois países se aprofundou em 2007, com a chegada da Aluminum Corporation of China, que assumiu o megaprojeto de cobre Toromocho, no centro do Peru. A empresa investiu US$ 5,59 bilhões em infraestrutura e operações.

A aquisição mais relevante dos últimos anos ocorreu em 2014, quando um consórcio liderado pela MMG Limited, com Guoxin e CITIC, comprou um dos maiores depósitos de cobre do Peru, em Apurímac. O investimento somou US$ 4,74 bilhões.

Nos últimos anos, o investimento chinês se diversificou para energia, infraestrutura portuária e logística. No país, com a venda de ativos por empresas dos EUA e da Europa, estatais chinesas adquiriram participações majoritárias na Enel e na Luz del Sur, principais distribuidoras de eletricidade de Lima.

Em 2024, a China COSCO Shipping inaugurou o megaporto de Chancay, ao norte de Lima. Com uma capacidade de movimentação estimada em dois milhões de contêineres ao ano, o porto é considerado a instalação portuária mais importante da costa do Pacífico Sul.

Inspeção do terminal portuário de Chancay, Peru, junho de 2024
Inspeção do terminal portuário de Chancay, Peru, junho de 2024. O presidente chinês Xi Jinping participou da inauguração do porto em novembro daquele ano (Imagem: Presidência do Conselho de Ministros do Peru / Flickr, CC BY NC SA)

A China também tem peso decisivo na balança comercial do Peru. No início de 2025, 28,7% das importações eram originárias da China, enquanto 33,8% das exportações peruanas eram enviadas ao país asiático. 

Algumas empresas chinesas em operação no Peru, porém, têm sido associadas a denúncias de corrupção. Em 2022, uma delatora denunciou um grupo de congressistas conhecido como “Los Niños”, acusado de fazer lobby a favor de um consórcio envolvendo as empresas China Railway Tunnel Group e China Civil Engineering Construction Corporation.

O empresário Yang Zhihu também é considerado um dos integrantes do chamado ”Clube do Dragão”, grupo acusado de “tráfico de influência” em contratações públicas.

Cynthia Sanborn, da Universidade do Pacífico, considera que isso reforça a percepção negativa sobre negócios com empresas chinesas: “Não devemos tratar todos os investimentos chineses como homogêneos, assim como não faríamos com investimentos mexicanos, americanos ou franceses. As denúncias de corrupção são um problema interno em vários setores – e também é nossa responsabilidade lidar com elas”.

Tensões socioambientais

Algumas empresas chinesas em operação no Peru também enfrentaram pressões por danos ambientais.

É o caso da resistência de comunidades indígenas da província de La Convención, no centro do Peru, desde que a China National Petroleum Corporation adquiriu a concessão do campo de gás em 2013. Os povos contrários ao projeto alegam que não houve consulta prévia.

Yuveni, vilarejo na província de La Convención
Yuveni, vilarejo na província de La Convención. Lá, as comunidades indígenas resistem à instalação de um projeto de gás administrado por uma empresa chinesa (Imagem: Presidência do Peru / Flickr, CC BY NC SA)

Mais recentemente, a fabricante de cerâmica e porcelana Tengda, também ligada a Yang Zhihua, construiu uma fábrica de 35 hectares no distrito de Salas, em Ica, em 2022. Antes do início das operações, a Agência de Avaliação e Fiscalização Ambiental do Peru indicou que a instalação exploraria excessivamente os recursos hídricos e liberaria gases prejudiciais à saúde. Atualmente, a fábrica não está em operação.

O site peruano Ojo Público divulgou recentemente que várias empresas estão sendo investigadas por extração ilegal, roubo e exportação de rejeitos de mineração para a China. 

O material chegou aos portos chineses após ter sido adquirido pela WuChan ZhongDa International Group e pela Shuikoushan Nonferrous Metals, ambas estatais. Nenhuma das duas respondeu às dúvidas do Dialogue Earth

O transporte e a extração por meios ilícitos de materiais potencialmente tóxicos revelam como a falta de fiscalização pode elevar os riscos de danos ambientais.

Potências em disputa

Agora, o Peru ainda está no meio de um cabo de guerra entre a China e os Estados Unidos.

Após uma recente decisão judicial que restringiu o poder de fiscalização local sobre o porto de Chancay, o Escritório para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado dos EUA alertou para uma possível “perda da soberania peruana” em relação aos chineses.

“Tudo tem um preço. A longo prazo, o que era barato acaba saindo caro. Não há preço mais alto a pagar do que perder a soberania”, reforçou Bernie Navarro, embaixador dos EUA no Peru, nas redes sociais. 

Lian Jian, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da  retrucou a jornalistas: “A China se opõe firmemente às falsas acusações e à desinformação espalhadas pelos Estados Unidos contra a cooperação China-Peru no porto de Chancay”.

César Gutiérrez, consultor e ex-presidente da estatal petrolífera Petroperú, rejeitou as alegações de que a medida judicial prejudica a soberania do país. “A regulamentação de Chancay deveria ter sido definida antes da concessão do porto em 2008, e não seis meses antes da inauguração, como se tentou fazer”, afirmou ao Dialogue Earth.

A recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA reforça a ambição de manter a hegemonia no hemisfério ocidental. Mas José de Echave, ex-vice-ministro do Meio Ambiente e pesquisador da CooperAcción, avalia que Washington tenta apenas correr atrás do prejuízo: “A China se tornou o principal parceiro comercial da maioria dos países do mundo, e o Peru é um deles. Para os EUA, é difícil reverter investimentos como o de Chancay, embora provavelmente tentem contrabalançar essa influência, como visto no Canal do Panamá”.

Em janeiro, os EUA aprovaram um acordo de US$ 1,5 bilhão para a modernização da base naval de Callao, próxima ao aeroporto internacional de Lima. Enquanto isso, o Peru ainda não decidiu sobre a aquisição de uma frota de caças americanos de US$ 3 bilhões.

Às vésperas das eleições presidenciais, a escolha do eleitorado peruano será crucial para definir os rumos desses investimentos e das relações com EUA e China no tabuleiro geopolítico.

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