Energia Opinião: Transição energética não justifica lucros às custas da desigualdade Mudança na matriz energética deve respeitar direitos humanos e ambientais, afirmam autores de relatório sobre um projeto eólico na Patagônia argentina Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Pescadores na praia de Río Grande, província da Terra do Fogo, Argentina. A região é a mais próxima da Antártida, continente de recursos naturais inexplorados e grande valor científico e ambiental (Imagem: AlexCorv / Alamy) Guillermina French, Joel De Souza Abril 30, 2026Abril 30, 2026 Enfrentar a crise climática significa reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, por isso, a transição energética é essencial. Até agora, bilhões de dólares foram investidos em projetos para impulsionar a geração de energia eólica e solar em todo o mundo. Porém, muitos projetos se baseiam em prioridades equivocadas. Na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina, um parque eólico de 33 megawatts foi apresentado como uma solução sustentável para reduzir a dependência de gás e melhorar o acesso à eletricidade na província. Ele teria sido o primeiro projeto argentino financiado pelo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), no valor de US$ 65 milhões. Mas ele foi cancelado no início deste ano, não por causa de seus riscos socioambientais, mas porque o governo argentino não deu as garantias necessárias para o financiamento. Nossa análise revelou que o projeto apresentava problemas de transparência e participação da sociedade civil. Embora o banco afirme que houve “consultas importantes e participação dos atores interessados com as comunidades”, não encontramos evidências oficiais que comprovassem uma participação pública efetiva. O relatório foi elaborado pelas organizações argentinas Fundação para o Meio Ambiente e Recursos Naturais, Fundação para o Desenvolvimento de Políticas Sustentáveis e Cultura Ambiental – Causa Ecologista.O projeto do parque eólico também trouxe preocupações sobre possíveis impactos ambientais. O AIIB observou que a construção e operação das oito turbinas eólicas poderiam levar à fragmentação do habitat, além de gerar emissões de poeira e resíduos sólidos. Também foram destacados riscos para a vida selvagem, como a obstrução de espécies migratórias e as colisões com aves, além da proximidade com a Reserva da Costa Atlântica da Terra do Fogo, importante área úmida reconhecida internacionalmente. Mas, no fim das contas, foi a ausência de uma garantia do governo — e não essas preocupações ambientais legítimas — que impediu o projeto de seguir em frente. Os investidores queriam mais proteção contra riscos financeiros, transferindo o ônus para o Estado argentino. Martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) em Ushuaia, Terra do Fogo, Argentina. O projeto de um novo parque eólico nessa região poderia levar à fragmentação do habitat e a colisões com aves (Imagem: Emiliano Arona Ferreira / Alamy) A transição energética deve ser concebida de forma participativa e transparente, com o objetivo de transformar o atual modelo energético em algo verdadeiramente sustentável. Dada a necessidade de transformar os sistemas energético e financeiro, a transição energética está sendo impulsionada, em parte, por instituições financeiras e corporações, e é assim que os modelos tradicionais de energia e negócios continuam, sem refletir as transformações necessárias. A urgência da transição não justifica um modelo projetado para maximizar os ganhos financeiros e o aumento da dívida pública, agravando as desigualdades. Deveria ser justamente o contrário: uma transição sustentável precisa transformar o sistema energético de maneira justa, respeitando a natureza e garantindo os direitos das comunidades. O projeto do AIIB também deve ser analisado sob uma perspectiva geopolítica no contexto da disputa entre a China e os Estados Unidos por posições estratégicas. A província da Terra do Fogo é o ponto do continente americano mais próximo da Antártida, rica em recursos naturais e de grande valor científico e ambiental. Sua importância geopolítica é nítida diante de uma série de visitas recentes à região por comandantes militares dos EUA e exercícios navais em Ushuaia, capital da província. A China, por sua vez, tem demonstrado interesse na construção de um porto na região. LEIA MAIS Ao mesmo tempo, a luta pelo controle e pela monopolização das cadeias de valor no setor de energia está se intensificando. Isso se estende desde o nível primário dos recursos — sejam combustíveis fósseis ou energias renováveis — até os serviços e tecnologias. Simultaneamente, há novas guerras em curso, enquanto direitos, normas internacionais e espaços de diálogo estão sendo ignorados e atropelados. A competição geopolítica entre Estados e grandes corporações para garantir o status de fornecedores estratégicos continua sendo determinante. Para que a transição energética seja justa, deve ocorrer com pleno respeito aos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais, bem como à biodiversidade. Seus processos devem ser graduais, participativos e democráticos. A transição deve promover modelos descentralizados e diversificados, e não apenas a substituição de uma fonte de energia por outra. É o que defende o livro A Transição Energética na Argentina, publicado em 2022 e escrito pelos pesquisadores Maristella Svampa e Pablo Bertinat. Se a transição não for abrangente, não será socioecológica. Devemos pensar em mudar o modelo energético para além da simples redução de emissões. Não podemos permitir que a transição energética seja ditada pelos interesses das instituições financeiras internacionais. O financiamento internacional para energias renováveis deve ser acompanhado de justiça social e canais claros de comunicação com as comunidades. Continue lendo Reportagem Transição energética Colômbia enfrenta combustíveis fósseis, mas transição será lenta Reportagem Escassez de água Com apoio chinês, megaobras prometem aliviar crise hídrica no Peru Reportagem Poluição da água Mulheres e idosos sofrem mais com crises no litoral brasileiro Reportagem Comércio Arbitragem internacional pode travar normas ambientais na região Reportagem Mineração Chile busca minerais críticos em resíduos da mineração Reportagem Turismo Projeto de megaparque aquático acirra tensões no Caribe mexicano Reportagem Produtos químicos Morte de milhões de abelhas cria debate sobre uso de agrotóxicos Reportagem Negociações ‘Se você luta pela paz, precisa dialogar com quem está em guerra’