Em 2018, quando Gustavo Petro disse que substituiria as exportações colombianas de combustíveis fósseis por abacates, sua promessa foi recebida como uma piada. Oito anos depois, com Petro presidente, a Colômbia acaba de receber a primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. A cidade-sede do evento, Santa Marta, tem uma importante indústria de exportação de carvão. A escolha desse local na costa do Caribe colombiano foi uma declaração para o mundo: o país quer levar a sério a transição energética.
A conferência ocorreu fora do sistema das Nações Unidas e não exigiu compromissos juridicamente vinculantes às 57 nações presentes. Mesmo assim, o encontro convocou os participantes a elaborar planos nacionais de combate aos combustíveis fósseis. O anúncio de uma segunda edição do evento no ano que vem em Tuvalu, apoiado pela Irlanda, foi recebido com aplausos.
Para a Colômbia, sediar a conferência de países simpatizantes à causa é um novo passo nas políticas do governo em prol da transição energética. Tão logo assumiu o cargo, Petro anunciou a suspensão de novas concessões de exploração de óleo e gás.
A Colômbia tem uma vantagem sobre a maioria das nações presentes em Santa Marta: apenas um terço de sua eletricidade vem de combustíveis fósseis. A maior parte vem da geração hidrelétrica, complementada por biocombustíveis e usinas solares e eólicas. Por outro lado, as energias renováveis só atendem a um quarto da demanda energética total da Colômbia, que tem visto uma expansão da demanda por gás natural.
Com seus compromissos internacionais de alto nível e o protagonismo enquanto anfitriã da recente conferência sobre combustíveis fósseis, a Colômbia tenta se colocar na vanguarda dessa agenda global. Porém, isso também joga uma pressão adicional sobre seus esforços para reduzir o uso de carvão, petróleo e gás, segundo especialistas.
Outro fator que pode alterar drasticamente seus planos é o futuro da eleição presidencial colombiana, marcada para o fim de maio.
Planos colombianos
Embora alguns projetos de energia renovável – principalmente as usinas eólicas – sofram resistência de algumas comunidades colombianas, especialistas afirmaram ao Dialogue Earth que eles normalmente são vistos de forma positiva. A ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, também defende o fim dos combustíveis fósseis como medida a favor da soberania energética nacional — argumento que vem ganhando força desde o início do conflito no Golfo.
Na véspera da conferência em Santa Marta, o governo colombiano anunciou uma série de medidas para reforçar sua posição. O Ministério do Meio Ambiente publicou a versão preliminar de um plano para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis no país. O documento estabelece mecanismos para reduzir a demanda por combustíveis fósseis em 90% por meio da instalação de sistemas de energia solar e eólica, da eletrificação de diversos setores e de investimentos em eficiência e gestão da demanda energética.
Em novembro, o governo declarou a região amazônica do país — cerca de 42% do território nacional — “livre de mineração em larga escala e [exploração de] hidrocarbonetos”. O conceito de zonas livres de combustíveis fósseis — áreas de importância ecológica ou cultural colocadas sob proteção contra a exploração — foi discutido em Santa Marta.
Andrés Gómez, coordenador latino-americano da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, afirmou que esse compromisso colombiano representou uma importante “demonstração de vontade política”.
Concretizar esse compromisso, no entanto, pode não ser tão fácil, principalmente em uma região do tamanho da Amazônia. No caso colombiano, a fraca fiscalização também dificulta esses esforços.
Muitas organizações indígenas são favoráveis à medida. Oswaldo Muca, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana, afirmou que os combustíveis fósseis ameaçam o modo de vida dessas comunidades e os ecossistemas protegidos por elas há milhares de anos. Porém, destacou que os povos indígenas precisam ser incluídos nas conversas e negociações: “Para que a transição seja verdadeiramente justa, ela não pode reproduzir os mesmos modelos de extrativismo e os impactos socioambientais da indústria de combustíveis fósseis”.
Dependência de combustíveis fósseis
Para atingir seus objetivos de transição energética, a Colômbia precisa reduzir sua dependência das exportações de combustíveis fósseis. Atualmente, só o carvão e o petróleo contribuem com 10% do PIB do país. Como indício dos riscos econômicos aos quais o país está exposto, a decisão da Petro de congelar o avanço da exploração de petróleo e gás levou a Colômbia ao rebaixamento de sua classificação de crédito em 2024.
A Colômbia também é a sexta maior exportadora global de carvão e a maior exportadora das Américas Central e do Sul. Quase toda essa produção provém dos departamentos de La Guajira e Cesar, no norte do país. Além disso, ele também é um importante exportador de petróleo.
O país está começando a se afastar do carvão, mas isso se deve em grande medida às mudanças nos mercados internacionais, e não a um plano intencional. Os destinos tradicionais para as exportações de carvão na Europa e nos EUA estão se esgotando, e a busca de compradores na Ásia está sendo travada pela concorrência e pelos altos custos de transporte.
“É muito caótico”, disse Paola Yanguas, pesquisadora de transições do Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique, na Alemanha. “Isso está perturbando muitas regiões dependentes de combustíveis fósseis”.
Esse problema ficou evidente quando a mineradora anglo-suíça Glencore, que operava no país por meio de sua subsidiária colombiana Prodeco, fechou abruptamente duas minas durante a pandemia de Covid-19. Com o fim das atividades em La Jagua e Calenturitas, no departamento de Cesar, cerca de cinco mil pessoas perderam seus empregos.
Em fevereiro de 2025, o Tribunal Constitucional da Colômbia determinou que os planos de fechamento de minas incluíssem consultas às comunidades.
Há impactos para além dos empregos formais do setor de carvão. Yanguas destacou que toda uma economia informal se desenvolve em torno de uma mina de carvão, desde serviços de alimentação até o trabalho sexual. “Imagine na Alemanha, eliminar toda a indústria automobilística?”, questionou a pesquisadora. “Isso tem um efeito dominó, com muitos impactos interligados”.
Diversificação econômica
Em janeiro, a autoridade ambiental de La Guajira rejeitou o pedido de licenciamento de uma nova mina de carvão. “Isso significa, de fato, que estamos vendo o fim da expansão do carvão na Colômbia”, disse Yanguas. “A maioria das concessões de mineração de grande escala expiram em 2034, e a questão da diversificação econômica, principalmente em Cesar e La Guajira, é mais urgente do que nunca”.
Na abertura da conferência em Santa Marta, a ministra Vélez disse que o país fortaleceu outros setores, incluindo a produção e o processamento de alimentos. “Conseguimos mostrar como essa decisão [de interromper a exploração] é viável”, disse ela. A pressão do impacto fiscal ainda é enorme, admitiu, “mas temos sido coerentes com a ciência e com os povos tradicionais”.
Vélez disse que a Colômbia também apostou no turismo, promovendo-se como o “país da beleza” e valorizando fortemente sua biodiversidade. O setor gerou um recorde de US$ 11 bilhões em 2025, enquanto as exportações de carvão, petróleo e gás geraram US$ 17 bilhões. Porém, é pouco provável que isso compense os impactos econômicos do declínio do carvão.
O rascunho do plano de ação da Colômbia sugere investimentos em hidrogênio verde, biocombustíveis e extração de minerais críticos como “oportunidades de negócio nas quais a Colômbia detém uma vantagem competitiva relevante”.
O país também pode trocar a extração de combustíveis fósseis pela exploração de minerais destinados às tecnologias de transição. Atualmente, já está sendo avaliado o potencial da extração de cobre, níquel, grafite e elementos de terras raras.
Ao mesmo tempo, alguns especialistas temem que a expansão da mineração perpetue as mesmas desigualdades socioeconômicas do setor de combustíveis fósseis. Denúncias de violações aos direitos humanos têm se repetido nas operações dessas minas na Colômbia, de acordo com o Business and Human Rights Centre.
Para Yanguas, a solução para evitar esse tipo de problema é incluir corretamente as populações e comunidades afetadas em cada projeto.
‘Estamos aqui para ajudar’
Em Santa Marta, líderes indígenas alertaram que a transição energética não pode ser usada como desculpa para “saquear” terras ancestrais. A conferência deu às comunidades espaço para se expressarem perante as delegações nacionais.
Embora a Colômbia busque essa liderança na transição energética, sua transformação interna já está sob pressão. Em alguns meses, o mandato presidencial de quatro anos de Petro chegará ao fim. Sua política econômica tem sido fortemente criticada pela oposição, e a principal adversária promete “reativar” a extração de combustíveis fósseis e promover o fracking, técnica de extração de petróleo por injeção de fluidos a alta pressão em rochas sedimentares, considerada de alto risco ambiental.
Em seu discurso em Santa Marta, o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos convocou os candidatos a “pensar no longo prazo”. E acrescentou: “Os políticos responsáveis são aqueles que, às vezes, tomam decisões impopulares, mas corretas”.
Em Santa Marta, a sombra das eleições colombianas não ofuscou a conferência. Entre os presentes, estava Yuvelis Morales Blanco, a jovem ativista contrária ao fracking. A recém-vencedora do Prêmio Goldman, o “Nobel verde”, disse que a sociedade civil está pronta para mostrar que uma transição justa e territorial é possível: “Estamos aqui para ajudar.”

