A província equatoriana de Imbabura está prestes a se tornar o epicentro de uma transformação no setor de mineração do país. O projeto Cascabel, operado pela chinesa Jiangxi Copper Corp (JCC), pode em breve sair do papel. Enquanto isso, dezenas de famílias temem ser realocadas.
Maior projeto de mineração de cobre do Equador, Cascabel deve ocupar cinco mil hectares e é apresentado pelo governo como potencial sede da maior mina subterrânea de prata do mundo, terceira maior mina de ouro e sexta maior mina de cobre. A expectativa oficial é que Cascabel triplique a participação das exportações minerais no PIB equatoriano.
Embora exista há quase duas décadas, o projeto está em um momento decisivo, afirmou Hugo Arnal, diretor de sustentabilidade da mineradora australiana SolGold, que desenvolveu o empreendimento, ao Dialogue Earth.
Cascabel era um ativo da SolGold, da qual a chinesa JCC detinha 12% de participação. No fim de 2025, a gigante chinesa anunciou a compra integral da SolGold por US$ 1,2 bilhão. Em comunicado após a transação, a JCC afirmou que Cascabel “tem o potencial de agregar imenso valor” à cadeia global de minerais. O negócio foi formalizado em março de 2026.
Fora do mundo da mineração, no entanto, Cascabel é motivo de controvérsia. Cerca de 300 pessoas podem ser realocadas para dar espaço à mais nova megamina do Equador, enquanto especialistas temem que o projeto avance em meio à falta de fiscalização ambiental.
Boom da mineração
Os embarques internacionais de produtos minerários geraram US$ 4,1 bilhões em 2025, segundo o Banco Central do Equador, e foi o quarto item na pauta de exportações.
A mina de cobre Mirador e a mina de ouro Fruta del Norte, por exemplo, são dois dos maiores projetos de mineração em escala do país.
Arnal disse que a empresa está realizando estudos para solicitar a licença ambiental de Cascabel, ainda em fase exploratória. “Queremos demonstrar que a mineração responsável é possível, minimizando os impactos ambientais e maximizando os benefícios sociais. Estimamos que a área ocupada pela infraestrutura e de impacto seja inferior a 630 hectares”.
Porém, ativistas e organizações ambientais temem a falta de informação sobre o projeto e seus possíveis impactos. O Dialogue Earth conversou com José Cueva, da Frente Nacional Antimineração, que apoia comunidades ameaçadas por atividades extrativas. Ele afirmou que o projeto está “avançando em segredo”, apesar de ser um empreendimento de grande escala. “Este é um projeto sobre o qual se sabe muito pouco”.
As datas de início do projeto foram adiadas várias vezes. Mas a SolGold informou ao Dialogue Earth que a extração em um dos depósitos, de Tandayama-América, deve começar em 2028, três anos antes do esperado. Como se trata de mineração a céu aberto, não há necessidade de escavação de túneis subterrâneos. Enquanto isso, uma das minas subterrâneas começará a operar em 2032.
Supervisão ambiental vacilante
Críticos temem que o projeto siga sem fiscalização ambiental adequada. O Ministério do Meio Ambiente do Equador foi fundido com o Ministério da Energia, e o governo congelou as contas bancárias de algumas fundações e líderes ambientais, incluindo aqueles que questionam as licenças concedidas a projetos de mineração. Em outubro de 2025, uma nova regulamentação classificou os projetos de mineração como estrategicamente importantes para a economia e limitou manifestações contrárias de comunidades e organizações.
Os resíduos de mineração são uma das grandes preocupações. Com base em informações públicas, a organização Yemanyá estimou que a mina produzirá dois bilhões de toneladas de rejeitos nos primeiros 25 anos de operação, o equivalente a 91 toneladas para cada habitante do Equador.
Rejeito da mineração
O rejeito da mineração é a lama de resíduos formada após a extração de minérios. O rejeito contém produtos químicos e outros elementos naturais, como o arsênio, que se tornam tóxicos quando expostos ao ar ou à água.
“É uma mina enorme e eles vão [extrair] quantidades inimagináveis de minerais do solo. Esse solo contém arsênio e metais pesados”, explicou Carlos Zorrilla, diretor-executivo da Defesa e Conservação Ecológica de Intag, organização que monitora e se opõe a projetos de mineração com potenciais ameaças ambientais para a região de Intag, em Imbabura.
Em 2024, uma análise do consultor Steven Emerman para o Rainforest Information Centre mostrou que o plano de gestão de rejeitos de Cascabel “não está suficientemente avançado”. Emerman destacou a falta de testes geotécnicos dos rejeitos e de análises nas estruturas de armazenamento. Seu relatório também afirmou que não houve modelagem das possíveis consequências do rompimento de barragens de rejeitos.
Por sua vez, Arnal disse que a SolGold seguirá às normas nacionais e internacionais para o armazenamento de rejeitos. Essas instalações ficarão dentro da área de operações, mas os locais exatos ainda não foram revelados. “A mina não causa impacto nos rios, mas será realizada uma análise de risco na Bacia do Rio Mira, que faz parte dos estudos de impacto ambiental”, acrescentou.
Eduardo Rebolledo, biólogo da Pontifícia Universidade Católica do Equador, na cidade costeira de Esmeraldas, afirmou que tais estudos já deveriam ter sido realizados. Ele disse ao Dialogue Earth que rios próximos, como o Cachaco e o Paramba, serão afetados. O cientista também observou que a poluição da bacia do Rio Mira poderia afetar o território colombiano.
Por enquanto, o plano original de criar um duto de 150 quilômetros para transportar concentrado de cobre até a cidade de Esmeraldas, na província de mesmo nome, foi descartado. Porém, Arnal disse que isso pode ser reconsiderado: “Se daqui a 20 anos decidirmos que precisamos construí-lo, isso é outra questão, mas para a fase de exploração, isso não está sendo considerado”.
Para Zorrilla, qualquer plano para transportar materiais por rodovia geraria mais emissões de dióxido de carbono, contradizendo os esforços da SolGold de promover a mina como um projeto de baixo carbono.
Realocação de comunidades
Embora por anos o projeto tenha enfrentado questionamentos ligados a perfurações não autorizadas e à falta de consulta às comunidades próximas, hoje há um impasse evidente: a necessidade de realocar as comunidades de Cascabel — o que, segundo Arnal, afetaria 69 famílias. Espera-se que elas sejam consultadas nos próximos meses sobre o “reassentamento involuntário consensual”, como foi chamado pela própria SolGold em resposta ao Dialogue Earth. Enquanto isso, a empresa afirma já ter adquirido cerca de 50% das terras necessárias dentro da área de concessão.
O Dialogue Earth entrou em contato com autoridades locais e moradores, mas todos se recusaram a comentar o caso, alegando medo de retaliação por parte da empresa e punições legais por se oporem a projetos de mineração.
Enquanto isso, o projeto segue firme e forte. A SolGold já planeja ampliar estradas e construir um túnel de acesso a Alpala ainda este ano.
