Energia

Opinião: Guerra no Golfo pode alterar rumo de energias limpas

Em meio à instabilidade global, a América Latina reúne condições para acelerar a transição energética, embora projetos renováveis também possam sofrer impactos
<p>Tropas americanas sobrevoam Mar do Caribe, setembro de 2025. Quase dois meses após os EUA terem atacado a Venezuela, a Casa Branca lançou uma ofensiva contra o Irã (Imagem: <a href="https://flic.kr/p/2rsigpE">Benjamin Applebaum</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/thejointstaff/">Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt-br">CC BY</a>)</p>

Tropas americanas sobrevoam Mar do Caribe, setembro de 2025. Quase dois meses após os EUA terem atacado a Venezuela, a Casa Branca lançou uma ofensiva contra o Irã (Imagem: Benjamin Applebaum / Chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, CC BY)

O conflito que eclodiu em 28 de fevereiro entre Estados Unidos, Israel e Irã está abalando os mercados globais de energia. 

Em apenas alguns dias, a escalada militar avançou com ataques a navios e bloqueios parciais no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% das remessas globais de petróleo e gás. Instalações estratégicas de gás natural liquefeito no Catar e refinarias na Arábia Saudita foram temporariamente paralisadas por ataques. Em razão disso, os preços do petróleo e do gás dispararam no mundo todo.

Embora o epicentro da crise esteja no Golfo Pérsico, seus efeitos serão sentidos na América Latina e no Caribe, que tenta avançar com a adoção de energias limpas.

A atual instabilidade no setor energético pode ter efeitos diversos sobre essa transição. Por um lado, atrasos logísticos podem encarecer os investimentos em energia limpa. Por outro, o aumento dos preços dos fósseis pode dar competitividade às renováveis.

A América Latina e o Caribe partem de uma posição favorável. Cerca de 70% da geração de eletricidade da região provém de fontes renováveis. O investimento em energia limpa atingiu US$ 70 bilhões em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia. Mas a agência estima serem necessários cerca de US$ 150 bilhões anuais até 2030 para descarbonizar o setor e cumprir as metas de transição energética da região. 

O potencial existe. De acordo com um levantamento da consultoria BNamericas, a região tem pelo menos 1.094 projetos de grande porte em energia renovável (sem considerar as hidrelétricas), com um investimento somado de mais de US$ 500 bilhões. Destes, 176 estão em construção ou em fases avançadas de desenvolvimento.

Ainda que o Estreito de Ormuz não seja a principal rota das tecnologias renováveis, as interrupções logísticas globais têm efeitos indiretos relevantes

Esses planos ainda coexistem com a forte presença dos combustíveis fósseis. Ao menos 190 petrolíferas de diferentes países exploram ou operam campos de petróleo e gás na América do Sul e Caribe. Há planos de construção de 8,8 mil quilômetros de oleodutos e gasodutos, sobretudo na América do Sul, e 19 terminais de exportação de gás. Por outro lado, a região parece ter abandonado os planos de novas termelétricas a carvão.

O impacto do conflito no Golfo Pérsico sobre os combustíveis fósseis é evidente, mas os projetos de energia renovável na América Latina também podem sentir seus efeitos. Ainda que o Estreito de Ormuz não seja a principal rota das tecnologias renováveis, as interrupções logísticas globais têm efeitos indiretos relevantes.

O bloqueio parcial do estreito elevou os custos de seguros marítimos e fretes por rotas alternativas, congestionando portos e cadeias de abastecimento. 

A maioria dos painéis solares, turbinas eólicas, baterias e inversores importados pela América Latina — geralmente da China — chega pelos oceanos Pacífico e Índico oriental. Porém, as interrupções em outros lugares podem causar atrasos logísticos e elevar os custos de transporte, gerando atrasos em projetos renováveis na região.

Painéis solares em fazenda familiar de Honduras
Painéis solares em fazenda familiar de Honduras. Para muitos países da região, as energias renováveis são fundamentais para sua segurança energética (Imagem: IRENA / Flickr, CC BY NC ND)

A crise resultante do conflito no Golfo também pode, paradoxalmente, acelerar os incentivos para a transição energética. Em regiões muito dependentes de importações de energia, a alta no preço do petróleo pode impulsionar tecnologias solares e eólicas.

Alguns exemplos incluem a expansão de parques solares em países do Caribe e no Chile. Muitas indústrias que antes dependiam do gás estão migrando para fontes de energia limpa, como usinas solares.

As tensões geopolíticas evidenciam ainda uma vantagem estrutural das energias renováveis: geração e consumo locais. Mesmo com eventuais obstáculos logísticos, elas não dependem de rotas sensíveis ou mercados concentrados. Isso reforça a resiliência energética e pode atrair financiamento internacional para iniciativas verdes da região.

O mundo está passando por um período de inovação acelerada impulsionado por múltiplas crises: a pandemia da Covid-19, o aumento das tensões geopolíticas e o crescente impacto climático das emissões de gases de efeito estufa.

Nesse contexto, a transição para economias baseadas em fontes renováveis não é apenas uma mitigação climática, mas também uma estratégia de segurança energética. Os governos devem priorizar investimentos em energia renovável, armazenamento, modernização da rede elétrica e transformação do transporte. Isso não só reduz as emissões, mas também protege as populações contra choques externos.

As atuais crises servem como um lembrete de que a diversificação das fontes de energia é fundamental para desenvolver sistemas energéticos sustentáveis e resilientes, menos vulneráveis às tensões geopolíticas.

A América Latina e o Caribe têm diante de si uma oportunidade histórica: usar este momento para consolidar uma posição central em sustentabilidade energética global. Com recursos abundantes de energia solar, eólica e hidrelétrica, além de minerais críticos como o lítio, a região pode se tornar um laboratório de transição: um exemplo que demonstre como aumentar a resiliência diante dos riscos geopolíticos, enquanto gera empregos verdes, desenvolvimento e uma verdadeira soberania energética.

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