Justiça Mais de 1.700 ativistas ambientais são mortos em uma década Quase 70% das mortes ocorreram na América Latina, impulsionadas por disputas pela terra, corrupção corporativa e governamental e conflitos armados Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Manifestante indígena protesta em frente ao Ministério da Justiça em junho, após o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira na Amazônia. Seus assassinatos chamaram a atenção mundial para os perigos que ativistas ambientais enfrentam na região (Imagem: Antonio Molina / Foto Arena / Alamy) Fermín Koop Outubro 6, 2022Agosto 14, 2023 “Desde novembro de 2020, as ameaças, intimidações e pressões que tenho sofrido por causa do meu trabalho em defesa dos direitos humanos e da natureza são semelhantes às sofridas por dezenas de líderes que vivem na região. Experienciei o assassinato de três amigos e líderes ambientais”. Essa declaração é de Oscar Sampayo, que se opôs ativamente aos avanços petrolíferos e minerários na região de Magdalena Medio, na Colômbia, documentando seus impactos em comunidades e no meio ambiente. Ele foi ameaçado em várias ocasiões por grupos paramilitares envolvidos com o tráfico de drogas, como as Águilas Negras — ou Águias Negras. 68% das 1.733 mortes de ativistas ambientais desde 2012 ocorreram na América Latina. A região foi a mais violenta também em 2021, com mais de três quartos dos assassinatos A Colômbia é o país com o segundo maior número de assassinatos de líderes ambientais na última década, atrás apenas do Brasil, segundo o mais recente relatório da organização britânica de direitos humanos Global Witness. Desde 2012, um total de 1.733 ativistas foram mortos em todo o mundo, dos quais 68% na América Latina. Os números subestimam a verdadeira escala de violência, acrescentam os autores do relatório. Muitos casos não são registrados, pois ocorrem em zonas de conflito ou em lugares onde há restrições à liberdade de imprensa e da sociedade ou onde o monitoramento independente dos ataques é falho. Além disso, poucos criminosos são levados à Justiça por gargalos na investigação dos crimes. As autoridades, diz o relatório, ou ignoram ou obstruem ativamente essas investigações, frequentemente “devido ao conluio entre os interesses corporativos e estatais”. “Em todo o mundo, os povos indígenas e ativistas ambientais arriscam suas vidas pela luta contra as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade”, disse Mike Davis, CEO da Global Witness. “Ativistas e comunidades desempenham um papel crucial, como a primeira linha de defesa contra o colapso ecológico”. Uma década de assassinatos Desde que a Global Witness começou a registrar a situação dos ativistas ambientais, há dez anos, o Brasil teve o maior número de assassinatos. Cerca de um terço das 342 mortes no país desde 2012 foram de indígenas ou afrodescendentes, e mais de 85% aconteceram na Amazônia brasileira. A Amazônia tornou-se o principal palco da violência e da impunidade contra os ativistas, dizem os autores do relatório. Desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder em 2018, o desmatamento e a mineração ilegal foram incentivados, enquanto os orçamentos das agências de fiscalização ambiental foram cortados. No início deste ano, os assassinatos do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira chamaram a atenção global para as condições em partes da Amazônia. Phillips e Pereira haviam viajado para o Vale do Javari, uma área conhecida por ser um polo de atividades ilegais. “Por protestar contra esses crimes ambientais e seus danos à nossa saúde, fomos submetidos a ameaças de morte, criminalização e campanhas de difamação”, disse Eliete Paraguassu, uma quilombola do estado da Bahia. “Continuaremos a combater o racismo ambiental sistemático decretado contra os quilombolas e as comunidades indígenas do Brasil”. Saiba mais: Entenda o papel dos recursos naturais nos conflitos armados da Colômbia Na Colômbia, a assinatura do acordo de paz com grupos armados tem agora mais de cinco anos, mas sua implementação não tem sido adequada, diz a Global Witness. Com isso, continuam a ocorrer disputas de terra e violência contra os grupos mais vulneráveis, como os pequenos e médios agricultores e os povos indígenas. Foi o caso de Sandra Liliana Peña, líder de uma comunidade indígena no departamento de Cauca, uma das áreas mais sangrentas da Colômbia. Ela sofreu ameaças depois de protestar contra o avanço de cultivos ilegais em sua região. Em 2021, Peña foi morta a tiros por quatro homens armados. O México também se tornou um dos países mais perigosos para os ativistas ambientais, com 154 assassinatos registrados na última década, a maioria entre 2017 e 2021. Os desaparecimentos são agora comuns, realizados por grupos criminosos organizados e funcionários corruptos do governo, diz o relatório. Toda e qualquer morte de um ativista é um sinal de que nosso sistema econômico está quebrado. Há uma guerra pela natureza, e os alvos são as regiões biodiversas remanescentes da Terra Diz-se que os territórios indígenas no México são particularmente vulneráveis a projetos extrativistas de grande escala, liderados por empresas nacionais e estrangeiras, e apoiados pelo governo. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos tem alertado para a falta de consulta às comunidades e os ataques contra quem se opõe aos projetos. A Global Witness destaca um caso de setembro de 2021, quando as autoridades descobriram restos humanos próximos às terras do povo Yaqui, no sul do estado de Sonora. Após vários desaparecimentos, a comunidade descobriu empresas interessadas em suas terras. Embora as autoridades culpassem os cartéis de drogas, membros da comunidade suspeitavam de envolvimento governamental e empresarial. O caminho a seguir A Global Witness declara que a situação dos ativistas ambientais em todo o mundo piorou nos últimos anos. As crescentes crises climáticas e da biodiversidade, bem como a expansão de governos autoritários, deram origem a um aumento das mortes desde 2018. Em 2021, o ano analisado pelo recente relatório, 200 defensores ambientais foram mortos — ou quatro por semana. O México foi o país com o maior número de assassinatos (54), seguido da Colômbia (33) e do Brasil (26). Quase 80% dos assassinatos no Brasil, Peru e Venezuela ocorreram na Amazônia. Apesar das estatísticas sombrias, os pesquisadores destacam alguns avanços. Em Honduras, um ex-executivo de energia foi condenado em junho a 22 anos de prisão por ordenar e planejar o assassinato da ativista Berta Cáceres em 2016. Saiba mais: Histórico Acordo de Escazú entra em vigor Também destacado é o Acordo Escazú, que entrou em vigor em 2021. É o primeiro tratado sobre meio ambiente e direitos humanos para a América Latina e tem entre seus objetivos a prevenção e a investigação de ataques contra os ativistas. Doze países latino-americanos já ratificaram o acordo, incluindo o México, embora outros como a Colômbia e o Brasil ainda não o tenham feito. A Global Witness cobra que os governos garantam a segurança dos ativistas, criando novas leis onde elas não existem e aplicando as existentes. Ao mesmo tempo, as empresas devem identificar e mitigar qualquer dano de suas operações e garantir a responsabilidade corporativa em todos os níveis. “Toda e qualquer morte de um ativista é um sinal de que nosso sistema econômico está quebrado”, afirma a Global Witness. “Alimentado pela busca do lucro e do poder, há uma guerra pela natureza, e os alvos são as regiões biodiversas remanescentes da Terra”. Continue lendo Reportagem Direitos humanos Cerca de 70% de mortes de ativistas ambientais estão na América Latina Reportagem Direitos humanos Peru está em cima do muro com Acordo de Escazú Reportagem Direitos humanos México promulga Acordo de Escazú para frear violência contra ativistas Reportagem Políticas Públicas América Latina tem ‘meio caminho andado’ em direção à boa governança ambiental Reportagem Desmatamento Marina Silva: 'O Brasil vai assumir o protagonismo ambiental internacional' Reportagem Povos Indígenas Indígenas apoiam moratória a petróleo e mineração no Equador, mas esperam outros avanços Reportagem Carne bovina Pecuária 'zero líquida': como reduzir emissões na América Latina Reportagem Petróleo Cinturão de Orinoco: a região biodiversa que abriga enormes reservas de petróleo