Em um ponto discreto, próximo a uma região mineradora da Venezuela, vários homens manuseiam, com mãos calejadas, um cascalho de tonalidade azul-escura.
Os minerais que eles transportam vêm de minas tomadas em 2023 por guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia. “Meses depois, eles chegaram a trazer helicópteros”, contou um garimpeiro. “Era um caos. Eles estavam levando o material embora”.
Amazon Underworld
Esta investigação integra a Amazon Underworld, aliança de veículos jornalísticos cujos repórteres visitaram a região em meados de 2025. O projeto conta com a parceria da organização Global Witness, cuja pesquisadora assina este artigo.
Em 3 de janeiro, após os ataques militares dos EUA e a posterior captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, as atenções rapidamente se voltaram para o setor petrolífero do país. Mas outra fonte de riqueza está no sul, onde vastas reservas minerais seguem ocultas sob a floresta. O controle dessa área é disputado por grupos armados rivais.
No início de março, a presidente interina, Delcy Rodríguez, se reuniu com executivos da mineração – incluindo vários dos EUA – e prometeu agir na “velocidade de Trump” para destravar a exploração dessas riquezas.
Isso exigiria organizar um setor caótico, no qual a mineração industrial é quase inexistente e a produção da estatal Minerven depende, em grande medida, do garimpo.
Recentemente, foi anunciado um acordo para que a estatal Minerven vendesse uma tonelada de ouro à trading Trafigura, sediada em Singapura, que também tem realizado grandes operações com petróleo venezuelano desde a intervenção dos EUA.
Os fluxos financeiros do ouro no sul da Venezuela já eram centrais para sustentar a economia sob o governo Maduro. Porém, nos últimos anos, novas commodities começaram a ganhar espaço: os minerais críticos para a transição energética e, em especial, as chamadas terras raras.
“O ouro nesta área já está acabando”, disse um minerador indígena à Amazon Underworld. “Agora, muita gente trabalha principalmente com depósitos de terras raras, estanho e coltan”.
Muitos desses minérios terminam na China, que controla 91% do processamento global de terras raras. Mas a Casa Branca comandada por Trump quer mudar esse cenário. “Os EUA querem impedir que a China acesse esses recursos, mas também querem tê-los”, explicou Bram Ebus, diretor da Amazon Underworld.
Areias pretas
Na Venezuela, as chamadas areias pretas pouco se distinguem de uma terra grossa e são vendidas por cerca de US$ 7,50 o quilo. Ainda assim, escondem traços valiosos de elementos de terras raras, essenciais para tecnologias renováveis, eletrônicos avançados e equipamentos militares. Elas são extraídas em áreas ricas em cassiterita, fonte do estanho usado na solda de aparelhos eletrônicos, e em coltan, usado em semicondutores e telefones celulares.
As terras raras reúnem 17 metais com propriedades químicas e físicas semelhantes e incomuns, essenciais para várias tecnologias modernas. Suas reservas globais estão estimadas em 110 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos EUA.
Elementos como gadolínio são usados em reatores nucleares; já o escândio, em células de combustível de veículos. Parte das terras raras integra os chamados minerais críticos para a transição energética, com insumos como o lítio, essencial para baterias de veículos elétricos, e o níquel, usado na produção de aço inoxidável.
O interesse dos EUA por esses recursos é mais discreto do que sua insistência na exploração do petróleo venezuelano. Mas autoridades do governo Trump já tocaram no assunto.
“Estamos falando de aço, minerais – todos os minerais críticos. Eles têm uma grande história de mineração que está enferrujada”, disse o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, a jornalistas no dia seguinte à captura de Maduro. “O presidente Trump vai consertar isso e trazer tudo de volta”.
Lutnick não deu detalhes sobre esses planos para recuperar o setor na Venezuela.
Industrializar a mineração da Venezuela seria uma tarefa ainda mais desafiadora do que restaurar sua deteriorada infraestrutura petrolífera.
As reservas minerais se estendem pelos remotos estados de Bolívar e Amazonas, no sul do país. Em 2016, Maduro designou 112 mil km² dessa área como o “Arco Mineiro do Orinoco” e, depois, anunciou planos para comercializar minerais com a China e outros países dos Brics.
Ainda não existe um mapeamento geológico formal das reservas, e a infraestrutura de mineração comercial segue praticamente inexistente. A extração é feita com técnicas artesanais, como dragagem de rios a partir de barcaças improvisadas e escavação de buracos rasos. Entre os trabalhadores, há milhares de indígenas que, diante da precariedade econômica, acabam envolvidos em uma atividade que ameaça suas terras e modos de vida.
Execuções, escravidão e trabalho infantil
Sem regulamentação ou fiscalização, mineradores da Venezuela trabalham em condições extremamente precárias. Muitas operações são inclusive controladas por facções como o ELN.
A investigação da Amazon Underworld mostra que comunidades mineradoras são submetidas a violações sistemáticas de direitos humanos, com execuções sumárias, trabalho análogo à escravidão, recrutamento de crianças e violência sexual. A liberdade de circulação é restrita, e punições extrajudiciais são impostas a trabalhadores acusados de roubo ou insubordinação.
“Eles têm uma prisão lá, com arame farpado e tudo”, contou um minerador. “Mas não dá para fazer nada a respeito, porque, se você fizer, eles vão te jogar lá dentro também”.
Condições brutais têm sido há anos documentadas na mineração ilegal de ouro, importante vetor de desmatamento e poluição dos rios com mercúrio. Porém, a ascensão dos minerais críticos está criando novos perigos, tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana.
“Não sabemos qual desastre está por vir, porque todo mundo está procurando esses elementos de terras raras, cavando buracos por toda parte, transformando tudo em terra arrasada”, disse o jornalista ambiental venezuelano Fritz Sánchez, integrante da investigação.
Mineradores indígenas também relataram impactos em sua saúde, acrescentou Sánchez: “Eles têm queimaduras na pele, dores articulares persistentes, articulações inchadas e uma série de patologias associadas à radioatividade dos minerais”. De acordo com ele, muitos casos não são documentados clinicamente devido à falta de atenção básica de saúde nessas áreas remotas.
A Amazon Underworld também indica que as forças do Estado venezuelano colaboram com guerrilheiros colombianos nessa economia paralela. Os minérios devem ser transportados a granel, usados como propinas pagas a militares locais que permitem ou facilitam seu transporte.
A investigação descobriu que parte dos minérios é vendida a atravessadores, que os transportam através da fronteira para a Colômbia. Lá, eles são processados e exportados usando códigos alfandegários fraudulentos. Outra parte é vendida a pontos de coleta criados em 2023 por outra estatal de mineração, a Corporação Venezuelana de Mineração, e depois embarcada para fora do país. Documentos de exportação e depoimentos obtidos pela Amazon Underworld indicam que, por ambas as rotas, a maioria dos minerais chega à China.
A Câmara de Comércio da China para Metais, Minerais e Produtos Químicos tem diretrizes para mitigar os riscos ambientais e as violações de direitos humanos ligados à mineração. Porém, o cumprimento desses padrões é voluntário. Documentos de exportação mostram que minerais provenientes de regiões conturbadas, como a Venezuela, chegam às indústrias chinesas com relativa facilidade.
Produção em alta?
O alto grau de ilegalidade representa um problema a qualquer empresa que pretenda investir no setor. Mas isso não impediu o governo venezuelano de pressionar pelo avanço da mineração. Duas semanas após os ataques dos EUA, Rodríguez anunciou planos para aumentar a produção de ouro em 30% até 2026, juntamente com ferro, bauxita e minerais críticos.
Os resultados podem ser vistos na prática. “O combustível está fluindo para essas áreas de mineração, e isso não aconteceria sem acesso a combustível”, disse Cristina Burelli, diretora da organização SOS Orinoco. “Quando [Rodríguez] diz ‘vamos aumentar a mineração’, é um sinal para que todos simplesmente continuem o que estão fazendo”.
Ebus, da Amazon Underworld, acredita ser improvável que empresas de mineração dos EUA se apressem a investir em um setor repleto de desafios legais e de segurança.
Grande parte da mineração ocorre em áreas protegidas, incluindo o Parque Nacional Yapacana, no Amazonas, estado no qual a mineração é proibida. Já no estado de Bolívar, a mineração exige consulta prévia às comunidades indígenas.
“Acho que o mais plausível é que os EUA comprem minérios de estatais venezuelanas e depois refinem nos EUA, fingindo que não sabem que o material vem de minas ilegais”, disse Ebus.
Até recentemente, as sanções dos EUA contra mineradoras venezuelanas dificultavam esse negócio. Mas, em 6 de março, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA emitiu uma licença autorizando parte das transações de ouro venezuelano.
Isso abriu também as portas às compras da Trafigura, empresa que mantém negócios e um escritório nos EUA, sinalizando a disposição de Washington de entrar na disputa pelos minerais venezuelanos.
Esse movimento não foi uma surpresa para David Soud, diretor de pesquisa e análise da consultoria IR Consilium: “Eles fizeram isso com o petróleo, onde o OFAC emite uma licença limitada em um ambiente que, de outra forma, seria fortemente sancionado”.
“Chama a atenção que Washington tenha sancionado a Minerven por práticas ilegais em 2019, constatado que seu comportamento não mudou e agora esteja apresentando investidores corporativos à empresa”, acrescentou Ebus. “Não apenas as empresas interessadas na mineração direta, mas também aquelas que compram ouro venezuelano estarão financiando a violência documentada ao longo da última década”.
O desafio da guerrilha
A classificação do ELN como organização terrorista pelos EUA complica o cenário: empresas que compram minerais de áreas sob controle do grupo podem ser acusadas de financiar o terrorismo.
Trump entrou em atrito com o presidente colombiano, Gustavo Petro, a quem os EUA acusam de favorecer grupos como o ELN por meio de suas políticas de paz. Mas, em fevereiro, o presidente americano afirmou a jornalistas que Washington e Bogotá haviam se comprometido a combater o grupo armado.
Se você quer combater a mineração ilegal, precisa oferecer alternativas para essas milhares de pessoas na pobrezaCristina Burelli, diretora da SOS Orinoco
Mesmo que o ELN fosse desmantelado — o que não deve ocorrer no curto prazo —, outros grupos armados permaneceriam. Dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e gangues venezuelanas poderiam ocupar vácuos de poder nessas áreas remotas. Na Colômbia, confrontos entre o ELN, rivais e forças militares já deslocaram milhares de civis.
Setor pede reforma
Para além de ações militares, qualquer tentativa de reorganizar a mineração na Venezuela demandaria atender às necessidades de comunidades mais vulneráveis, que muitas vezes acabam no setor para enfrentar a pobreza.
“Não há programas governamentais, nem saúde, nem educação”, disse Burelli. “Se você realmente pretende combater a mineração ilegal, precisa oferecer alternativas”.
Não há sinais de que uma transformação do setor esteja entre as prioridades dos governos de Trump ou Rodríguez.
“A mineração ilegal na Venezuela não está só devastando comunidades indígenas e ecossistemas frágeis, mas também minando a estabilidade das cadeias de abastecimento de minerais, fundamentais para a transição energética”, afirmou Emily Iona Stewart, diretora de políticas e ativismo da Global Witness.
“Agora, o que falta é mais transparência na cadeia de abastecimento, aplicação das sanções existentes, leis de transparência e grandes investimentos em alternativas à mineração ilegal para as comunidades”, concluiu Stewart.

