A fumaça da vegetação em chamas sobe por entre árvores remanescentes, e vias clandestinas recortam pastagens onde antes havia floresta. Visto de um sobrevoo pelo Parque Nacional Natural Serranía de Chiribiquete, em dezembro passado, o fogo sinalizava o início da temporada de desmatamento na Amazônia colombiana.
Nos meses que seguem, as toras queimadas dão lugar a pastagens ou a monocultivos de coca — planta usada na medicina tradicional de povos indígenas andinos, mas que, sobretudo na Colômbia, hoje abastece uma vasta rede ilegal de cocaína. Embora encaradas de formas distintas pelo Estado, a pecuária e a coca compartilham um efeito comum: ambas impulsionam o desmatamento na Amazônia colombiana e financiam, direta ou indiretamente, grupos armados que controlam a região.
Em 2026, a Colômbia completa uma década da assinatura dos acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), então principal guerrilha do país. No entanto, a desmobilização sem presença estatal contínua e a reparação limitada às vítimas do conflito criaram condições para o surgimento de dissidências da antiga guerrilha. Esses grupos passaram a ocupar terras públicas na Amazônia colombiana, muitas vezes convertidas em pastagens ou lavouras de coca.
O apoio governamental à pecuária, aliado à incapacidade de lidar com os grupos armados, tem ajudado a agravar o desmatamento. Entre 2015 e 2024, a região amazônica do país perdeu quase 800 mil hectares de floresta nativa. Esse foi o período de desmatamento mais acelerado dos últimos 40 anos, segundo uma análise do Dialogue Earth a partir de dados do MapBiomas, iniciativa que monitora o uso e a cobertura da terra por satélite.
Como parte do Programa Paz Total, que busca firmar novos acordos de paz e oferecer alternativas econômicas às dissidências, o presidente Gustavo Petro defendeu a bioeconomia e o turismo sustentável como substitutos para atividades ilegais.
Mas suas políticas não conseguiram conter a expansão do arco do desmatamento — a faixa de avanço da fronteira agrícola que atravessa o noroeste da Amazônia colombiana, onde se concentram as maiores taxas de derrubada de floresta.
O trecho mais pressionado abrange os departamentos de Guaviare, Caquetá, Meta e Putumayo, onde 80% da área desmatada foi convertida em pastagens ilegais, 15% em plantações de coca e 2% em vias clandestinas, segundo um relatório recente da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS).
Agora, em meio às eleições gerais, disputadas entre março e junho, a Colômbia volta a debater um problema histórico que entrelaça conflito armado, crime organizado e o desafio de preservar a floresta em áreas remotas da Amazônia. Os rumos dessas votações também definirão o novo projeto político para a floresta e as estratégias para lidar com a violência e o desmatamento na região.
Da coca às pastagens
A 400 quilômetros de Bogotá, Guaviare é o destino amazônico mais próximo para agricultores da região andina e, em décadas passadas, foi um dos focos de expansão da coca. Partindo do departamento andino de Cundinamarca, Olmes Rodriguez, de 47 anos, chegou ao Guaviare ainda adolescente, em 1995. Ele veio trazido pelos irmãos, atraídos pelas promessas de prosperidade da indústria ilegal.
Rodriguez trabalhou em diferentes etapas da produção de cocaína, começando pela “raspagem” — a colheita da folha — até se tornar “químico da coca, transformando a folha em pasta-base”, como contou ao Dialogue Earth.
Nos primeiros anos, ele disse ter conseguido acumular riquezas. Mas, em 2002, a chegada de Álvaro Uribe Vélez à Presidência da Colômbia intensificou o combate aos cultivos ilícitos, levando agricultores como Rodriguez a migrar para a pecuária.
A transformação dessa porção da floresta resume uma parte importante da história recente da Colômbia. A produção ilegal de coca disparou nas décadas de 1980 e 1990, impulsionada pela ascensão dos cartéis de drogas e pela demanda do mercado internacional. Em uma tentativa de conter a violência do narcotráfico, governos têm incentivado agricultores a migrar para outras atividades — entre elas, a criação de gado.
A partir de então, a pecuária passou a impulsionar a ocupação da Amazônia colombiana, muitas vezes por meio da grilagem de terras, inclusive em áreas protegidas e territórios indígenas. A expansão das pastagens que se seguiu estava menos associada à produção bovina e mais à tomada de posse e à valorização da terra, segundo um estudo do Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam).
Com esse histórico, a pecuária entrou em uma zona cinzenta na Amazônia colombiana. “A pecuária é irregular, mas não está criminalizada”, afirmou Camilo González Posso, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz.
Legado da violência
Hoje, a aparente calmaria da paisagem tomada por pastagens e rebanhos no Guaviare tem sido frequentemente abalada. Em meados de janeiro, 26 pessoas foram executadas em um ataque armado em El Retorno, município a 30 quilômetros de San José. Autoridades acreditam que os mortos eram integrantes da facção Estado Mayor Central. Pelo menos quatro menores de idade estavam entre as vítimas.
O departamento atualmente abriga cerca de meio milhão de bovinos, e o controle da região é disputado principalmente pelas facções Estado Mayor Central e Bloque Jorge Suárez Briceño, lideradas por ex-membros das Farc.
Gonzalez e outros pecuaristas, que pediram anonimato por medo de represálias, afirmaram que as dissidências têm rebanhos em grandes fazendas registradas em nome de terceiros. Além disso, extorsões do período das Farc, como a “vacina” ou o “imposto revolucionário”, passaram a incidir sobre o gado e os hectares de terra.
Produtores locais contaram ao Dialogue Earth que foram alvo dessas cobranças nos últimos anos. Um pecuarista mostrou um canhoto manuscrito, sem valor registrado, que confirmava o pagamento do “imposto” a uma dissidência das Farc.
Esse tipo de cobrança também foi citado por Carlos, dono da balança de gado La Fortuna, pequeno negócio de beira de estrada perto de San José del Guaviare. Como muitas outras na região, a balança pesa os animais antes da venda, definindo o preço do gado, independentemente de sua origem. Experiente no mercado local de gado, ele explicou que a taxa pode variar conforme o grupo armado e a área. “Em certos lados manda um; nos outros, manda outro”.
Incentivos perigosos
Ainda assim, a pecuária continua a receber incentivos estatais, que incluem créditos rurais facilitados, geralmente sem exigências de proteção ambiental. Soma-se ainda o Programa Integral de Substituição de Cultivos de Uso Ilícito, criado pelo governo para oferecer alternativas à coca, mas que, na prática, impulsionou a atividade irregular e o desmatamento da Amazônia.
Segundo a Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS), um terço das 42 mil famílias beneficiadas na região investiu em gado, quase 80% das compras de insumos foram destinadas à atividade, e o rebanho cresceu 86% entre 2017 e 2024, bem acima da média nacional.
Em outubro de 2025, o Tribunal Administrativo de Cundinamarca chegou a determinar que o Estado colombiano revisasse políticas e incentivos prejudiciais à floresta e avançasse na rastreabilidade de produtos como gado, leite, ouro e madeira.
Algumas dessas medidas estão sendo cumpridas pelo governo nacional, como a atualização de uma plataforma de rastreabilidade com dados em tempo real — a ferramenta ainda está em implementação e não tem resultados divulgados.
O Dialogue Earth procurou o Ministério do Meio Ambiente da Colômbia para comentar outras estratégias adotadas, mas não obteve resposta até a publicação.
Avanço sobre áreas protegidas
Após um longo período de recrudescimento, o cultivo de coca voltou a crescer nos últimos anos. Relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime indicam que a área de plantações ilegais nos municípios do arco de desmatamento da Amazônia colombiana aumentou quase 90% entre 2019 e 2023, alcançando 13,5 mil hectares. Ao todo, a região concentrava mais de 64 mil hectares cultivados em 2023.
A expansão recente é impulsionada, em parte, pelo aumento da demanda, sobretudo na Europa, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2025 da ONU. Esse mercado também é mais lucrativo que iniciativas de preservação: a venda de cocaína pode gerar mais de US$ 150 milhões por ciclo produtivo, ante US$ 55 milhões anuais de iniciativas como créditos de carbono e exportações de produtos nativos, segundo a FCDS.
Além das dissidências das Farc, paramilitares e cartéis do narcotráfico atuam nos departamentos, onde se multiplicam denúncias de recrutamento forçado de menores de idade e membros de comunidades indígenas e afro-colombianas.
Enquanto isso, os cultivos de coca avançam sobre áreas protegidas e territórios indígenas. Parte dessas plantações foi avistada durante sobrevoo realizado para esta reportagem na Reserva Natural Nukak e na Reserva Indígena Nukak Maku.
“A reserva Nukak Maku está sendo posta à prova política e juridicamente”, afirmou Rodrigo Botero, presidente da FCDS e nosso guia no avião.
Segundo Botero, o território indígena tem passado por transformações profundas, com invasões ligadas à pecuária e ao cultivo de coca, além de incentivos econômicos do governo que favorecem atividades contrárias à conservação. À medida que o agronegócio e outras atividades avançam, acrescenta, setores políticos e econômicos passam a questionar a necessidade de manter essas áreas sob proteção legal.
“A pressão política sobre as reservas indígenas na Colômbia tende a aumentar”, afirmou Botero.
Um levantamento da FCDS mostra ainda que o avanço dos cultivos de coca e da pecuária sobre áreas protegidas ameaça a circulação de espécies e integração entre ecossistemas da região. Dos mais de 196 mil hectares de corredores ecológicos mapeados, quase 65% já haviam sido desmatados ou degradados até 2025.
Botero ressalta que, pela confluência dos ecossistemas de savanas, Amazônia, Cordilheira dos Andes e Escudo das Guianas, “não há outro lugar com tanta diversidade por área na região — e provavelmente no mundo”.
Apesar do cenário adverso, algumas iniciativas começam a apontar para alternativas econômicas. Após atuar na indústria da coca, Olmes Rodriguez se estabeleceu na zona rural de San José del Guaviare, onde se tornou líder comunitário. Em 2018, então presidente da junta de associações locais, recebeu uma proposta financiada pelo governo da Noruega para implementar práticas agroecológicas em fazendas.
Para começar, a iniciativa precisou do aval das dissidências. “Aqui a gente precisa ser prudente. Antes de qualquer projeto, eu me encontrava com os homens que mandam na zona. Graças a isso, não tivemos problemas ou ameaças”, disse Rodriguez.
Com a autorização concedida, a iniciativa passou a capacitar produtores de sete comunidades na zona de influência do Parque Nacional Natural Serranía de Chiribiquete para implantar sistemas agroflorestais. “Fizemos um estudo e decidimos apostar na produção de açaí e patauá”, disse o líder comunitário.
A floresta tem o oxigênio que respiramos, a água que bebemos e os animais que comemos. Se derrubarmos tudo, não vamos ter mais nada para produzirOlmes Rodriguez, produtor rural no Guaviare
Hoje, mais de cem famílias no Guaviare participam da iniciativa e firmaram acordos de conservação da floresta com a Corporação para o Desenvolvimento Sustentável do Norte e Leste Amazônico, principal autoridade ambiental da região. Muitas delas, inclusive a do próprio Rodriguez, ainda tentam conciliar a produção sustentável com a pecuária, sua principal forma de sustento.
Apesar dos incentivos estatais ao desmatamento, Rodriguez acredita que muitos pequenos e médios produtores querem apostar em uma economia baseada na preservação da floresta. A maioria das famílias integrantes do projeto vive em áreas já desmatadas, e o agricultor tem buscado mostrar-lhes que preservar a floresta pode garantir o futuro da produção: “A floresta tem o oxigênio que respiramos, a água que bebemos e os animais que comemos. Se derrubarmos tudo, não vamos ter mais nada para produzir”.
O repórter do Dialogue Earth viajou a Guaviare a convite da FCDS para acompanhar os efeitos socioambientais e as dinâmicas do desmatamento na região.








