<p>Colheita de amendoim em projeto agroflorestal em Ceilândia, região administrativa vizinha à comunidade do Sol Nascente, Distrito Federal, Brasil (Imagem: <a href="https://pozzebom.com.br/">Fabio Pozzebom</a> / Dialogue Earth)<strong><br />
</strong></p>
Clima

Periferia de Brasília faz ‘plantio de guerrilha’ contra o calor

Ilhas de calor nas favelas da capital brasileira aumentam riscos à saúde – sintoma da desigualdade no acesso a áreas verdes em todo o mundo

Brasília foi projetada para ser uma cidade verde. No plano urbanístico da capital brasileira, inaugurada em 1960, a arborização era tão central que ela foi descrita como “cidade-parque”. Isso fica evidente no Plano Piloto, área central nobre com avenidas arborizadas e parques verdes por onde caminham moradores.

Porém, a 30 quilômetros dali, no Sol Nascente, uma das maiores favelas do país, o concreto tomou o lugar do Cerrado. A favela é formada por quarteirões de ruas majoritariamente asfaltadas, com casas que se amontoam umas sobre as outras e calçadas estreitas que mal comportam pedestres, quanto mais árvores.

“Tem horas que a rua toda está no sol e o ar não circula”, disse Francisco Silva, 34, em frente à sua casa no Sol Nascente. 

Para aliviar o calor, Silva está reformando a própria casa: o concreto vai dar lugar a grama e mudas. Na calçada, quebrou o cimento para plantar a única árvore da rua — um ipê solitário. No período seco, ele lava o quintal todo dia, espalha toalhas molhadas pela casa e usa máscara contra a poeira.

homem caminha por favela do Sol Nascente
Uma das maiores favelas do país, Sol Nascente tem uma paisagem formada por ruas asfaltadas e poucas árvores (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)
Rua arborizada do Plano Piloto, no centro de Brasília
Já a área do Plano Piloto, no centro de Brasília, tem grandes parques e ruas arborizadas (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)
Francisco Silva, morador de Sol Nascente, quebrou o cimento da calçada para plantar um ipê
Francisco Silva, morador de Sol Nascente, quebrou o cimento da calçada para plantar um ipê — única árvore da rua (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)

“Fica tudo muito seco, o nariz sangra”, disse Silva, que sofre com rinite e bronquite, o que o leva a acordar várias vezes à noite. “Se fechar a janela, sufoca; se abrir, entra vento seco e terra”. 

No Plano Piloto, a média de área verde por habitante é de 138 m², segundo um estudo de 2025. Já em algumas áreas periféricas de Brasília, como Sol Nascente, a oferta de vegetação é 23 vezes menor, inferior a 6 m². 

Valdir Steinke, autor da pesquisa pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em paisagens e gestão de recursos hídricos, diz que o Distrito Federal (DF) reflete um padrão nacional: “áreas verdes concentradas nas regiões mais nobres, e periferias sem quase nada”. A renda média per capita das famílias no Plano Piloto é 12 vezes maior que a do Sol Nascente. 

“É o retrato nu e cru de um modelo de segregação socioeconômica em que o planejamento urbano das periferias ignora a natureza”, afirmou ao Dialogue Earth.

Esses problemas estão se agravando à medida que as mudanças climáticas elevam as temperaturas e aumentam os problemas de saúde. Diante dessas preocupações, o governo do DF planeja um programa de plantio de árvores, e moradores recorrem ao “plantio de guerrilha” onde o planejamento urbano tem falhado.

Desigualdade verde é desafio mundial

Sol Nascente surgiu nos anos 1990 em terras rurais ocupadas de forma irregular. Hoje, mais de 70 mil pessoas habitam 9 km² — densidade populacional quase 16 vezes maior que a média do DF. Com o asfalto, a pouca vegetação e a alta concentração de moradores, a favela reúne condições ideais, segundo pesquisadores, para a formação de ilhas de calor urbanas.

“O concreto e o asfalto absorvem e retêm o calor do sol com mais eficiência do que a vegetação, enquanto as árvores proporcionam resfriamento pela sombra e umidade”, explicou Gregory Wellenius, diretor do Centro para o Clima e a Saúde da Universidade de Boston.

O que são ilhas de calor urbanas?

Em grandes áreas urbanas, o efeito de ilha de calor consiste em um fenômeno no qual algumas áreas das cidades apresentam temperaturas mais altas do que outras. Há alguns motivos para isso: excesso de superfícies asfaltadas ou construídas com outros materiais que absorvem calor; a queima de combustível e outros processos humanos que geram calor; e a ausência de vegetação. As ilhas de calor podem agravar a intensidade das ondas de calor em áreas urbanas.

O que acontece no Sol Nascente segue um padrão global, como mostra um estudo recente publicado no periódico Sustainable Cities and Society. Ao analisar 199 cidades ao redor do mundo, ele concluiu que a desigualdade no acesso a áreas verdes é generalizada, mas que o nível da disparidade em cidades do Sul Global é o dobro em relação ao Norte Global. 

Dados mais específicos sobre o problema são mais limitados no Sul Global. Em países do Norte Global, embora menos acentuada, a desigualdade verde separa bairros de alta e baixa renda. Um estudo identificou nas periferias de Nova York e Londres as maiores desigualdades de acesso ao verde dessas cidades. Nos Estados Unidos, 92% dos bairros pobres têm menos árvores e são mais quentes que as áreas nobres, segundo outro estudo.

“Os mapas de calor extremo se parecem muito com os mapas de bairros com poucos recursos”, disse ao Dialogue Earth Jeremy Hoffman, pesquisador da Groundwork USA, rede de organizações americanas que atuam por justiça climática. “Os pontos críticos de calor tendem a se sobrepor a áreas com mais pobreza, menor escolaridade, mais incidência de doenças crônicas e menos acesso a espaços verdes”.

Regra 3-30-300

Foi para enfrentar a desigualdade verde nas cidades que o holandês Cecil Konijnendijk, especialista em florestas urbanas e professor honorário da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, propôs a “regra 3-30-300”. Criada em 2021, a diretriz estabelece que todo indivíduo deveria avistar ao menos três árvores da janela de casa, viver em um bairro com ao menos 30% de cobertura arbórea e morar a no máximo 300 metros de um parque ou área verde — métricas que buscam garantir acesso visual e físico à natureza e a seus benefícios.

Parque Olhos d’Água, Asa Norte, Plano Piloto
Parque Olhos d’Água, Asa Norte, Plano Piloto. A regra ‘3-30-300’, do urbanista Cecil Konijnendijk, diz que cada pessoa deveria avistar ao menos três árvores da janela de casa, viver em um bairro com 30% de cobertura arbórea e morar a 300 metros de uma área verde (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)

A regra tem sido adotada por planejadores urbanos ao redor do mundo, orientando políticas de arborização na Bélgica, Suécia, Holanda, Estados Unidos e Canadá. 

No Brasil, o Plano Nacional de Arborização Urbana, lançado na conferência climática COP30 em 2025, se inspira na regra. O documento reconhece que a urbanização desordenada do país resultou em fragmentação de paisagens, desmatamento e solos impermeabilizados pelo concreto, o que, somado às mudanças climáticas, geram impactos negativos à vida urbana. 

Para reverter esse quadro, o plano define metas até 2045, entre elas a de elevar de 45,5% para 65% a proporção de moradores com ao menos três árvores no entorno, o que representaria cerca de 40 milhões de pessoas a mais com acesso ao verde. Ainda não está claro quais mudanças isso traria para o Sol Nascente ou o Plano Piloto.

Alguns especialistas questionam se a regra seria aplicável fora do Hemisfério Norte. Paulina Achurra, da plataforma de ensino Arq.Futuro, alertou que uma solução como essa não funcionaria em comunidades onde “mal existe uma calçada para plantar uma árvore”. 

“Embora faltem soluções inovadoras que incluam o verde, elas devem ser plausíveis de aplicação nas nossas cidades. E esses são os desafios das cidades do Sul Global”, disse Achurra em um evento em São Paulo.

Calor extremo traz riscos à saúde

Larissa Brenda Cordeiro coordena o instituto de justiça socioambiental Filhas da Terra em Sol Nascente. Ela diz que o calor da tarde chega a ser tão forte que inviabiliza as atividades do órgão, como reuniões. Asmática e com fibromialgia, o calor lhe provoca dores nos músculos e nas articulações. “Passo muito mal tanto no frio como em períodos de muito calor”, disse.

Larissa Brenda Cordeiro, presidente do Instituto Filhas da Terra, exibe muda de ipê plantada em parque urbano próximo a Sol Nascente
Larissa Brenda Cordeiro, presidente do Instituto Filhas da Terra, exibe muda de ipê plantada em parque urbano próximo a Sol Nascente. O calor agrava sua asma e fibromialgia (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)

Segundo Patricia Fabian, professora de saúde ambiental da Universidade de Boston, quem vive em ilhas de calor está mais exposto aos efeitos nocivos das altas temperaturas. “Quanto mais quente o ambiente, maior o risco de impactos na saúde, incluindo doenças cardiovasculares, problemas cognitivos, sintomas respiratórios e até mesmo morte”, explicou. 

Pesquisas conduzidas por ela e colegas na região de Boston registraram diferenças de mais de 10°F (cerca de 5,5°C) entre algumas comunidades, com as zonas mais quentes concentradas onde há pouco verde e muitas superfícies impermeáveis.

Na estação seca, algumas partes da região central de Brasília podem registrar até 37,8°C de temperatura máxima, enquanto Ceilândia (região administrativa que incorporou Sol Nascente até 2019) chega a 46,6°C. Já a umidade relativa do ar cai de 11% em áreas arborizadas para 6,2% em Ceilândia.

Protegendo o verde que sobrou

Uma das poucas áreas verdes do Sol Nascente é um remanescente do Parque Lagoinha, que vem sendo gradualmente desmatado por conta do avanço de ocupações. A área também carece de infraestrutura, o que impede seu uso para recreação pública. 

A presença de buritis indica abundância de água subterrânea, mas o local acumula lixo, inclusive em nascentes, que se conectam ao rio Melchior e à Bacia do Descoberto, responsáveis por abastecer por mais de 60% do DF.

Lixo espalhado por uma das poucas áreas verdes de Sol Nascente
Lixo espalhado por uma das poucas áreas verdes de Sol Nascente, o Parque da Lagoinha. A presença de palmeiras como buritis indica abundância de água subterrânea, mas a área vem sendo poluída constantemente (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)
Nascentes no Parque da Lagoinha alimentam rio Melchior e bacia do Descoberto
Nascentes no Parque da Lagoinha alimentam rio Melchior e bacia do Descoberto, responsáveis por abastecimento hídrico de mais de 60% do Distrito Federa (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)

Em dezembro de 2025, o DF aprovou um plano para reduzir o déficit verde nas periferias. Para o caso do Sol Nascente, o governo informou ao Dialogue Earth que o início do plantio depende de obras de urbanização, já que as calçadas estreitas e a falta de drenagem pluvial impediriam a sobrevivência das mudas. Mas o governo não informou se e quando as obras ocorreriam.

Por isso, Cordeiro e outros ativistas recorrem ao “plantio de guerrilha”, como ela descreve, em áreas como o Parque Lagoinha. Eles ignoram a proibição de moradores plantarem mudas, imposta sob a justificativa de que a iniciativa oferece riscos à fiação e às tubulações. “A gente fecha o olho e finge que não escutou. Se não plantarmos, quem vai?”, questiona. 

Hoje, o parque é um amplo gramado com poucas árvores nativas, mas a expectativa é que se torne uma área arborizada com mesas e quadras de esportes. “Nosso sonho é que o Lagoinha vire um parque de verdade para que a população possa usufruir, assim como acontece no Plano Piloto”, disse Cordeiro. 

Eles têm uma inspiração: no limite entre Sol Nascente e Ceilândia, a Floresta da Nasaré, como ficou conhecida, nasceu de um lixão. Em 2009, a dona de casa Nasaré Francisca da Silva começou a limpar sozinha o terreno público do tamanho de um campo de futebol em frente à sua casa. “As pessoas jogavam de tudo, de restos de construção a animais mortos”, lembrou. “Eu olhava aquilo da minha porta e me dava tristeza”.

Nasaré Francisca da Silva rega horta na Floresta da Nasaré
Nasaré Francisca da Silva rega horta na Floresta da Nasaré, em Ceilândia, projeto agroflorestal criado por ela a partir de um lixão (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)
Projeto da agrofloesta Floresta da Nasaré
Em 2023, o projeto da agrofloesta foi reconhecido formalmente pelo governo do Distrito Federal, 14 anos após o início do projeto (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)
Sagui escondido entre galhos na Floresta da Nasaré
Sagui escondido entre galhos na Floresta da Nasaré. A sombra das árvores ameniza o calor nos dias mais quentes (Imagem: Fabio Pozzebom / Dialogue Earth)

Ela plantou a primeira muda na área que hoje vem se tornando uma agrofloresta, mantida por vizinhos, organizações e pesquisadores da UnB. O cuidado dela com o terreno foi formalizado em 2023 pelo governo do DF por meio do programa Adote uma Praça, que permite a moradores e empresas cuidar de espaços públicos. A Floresta da Nasaré segue sem investimento público, mas o termo garante reconhecimento oficial, reduzindo o risco de a área ser tomada ou o trabalho interrompido sem aviso.

Hoje, a temperatura cai sob a copa das árvores, e animais silvestres, como saguis, já apareceram. “Todo mundo está livre para chegar aqui e se refrescar do calor”, convida Silva.

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.

Analytics

This website uses Google Analytics to collect anonymous information such as the number of visitors to the site, and the most popular pages.

Keeping this cookie enabled helps us to improve our website.

Marketing

This website uses the following additional cookies:

(List the cookies that you are using on the website here.)