Em fevereiro, a maior empresa de energia do Brasil, a Axia Energia (antiga Eletrobras), anunciou um acordo com parceiros alemães para desenvolver a primeira usina de hidrogênio verde do país dedicada à produção de aço com baixa emissão de carbono. Um mês depois, a Companhia Siderúrgica Nacional, uma das maiores produtoras de aço do país, lançou uma planta de hidrogênio verde no Paraná.
Embora sejam apenas projetos-piloto, os dois indicam uma nova ambição na indústria brasileira: comprovar a viabilidade comercial dessa forma de produção de aço e as vantagens competitivas do Brasil como produtor de aço sustentável.
O hidrogênio verde, produzido com fontes renováveis, é visto como um caminho promissor para reduzir as emissões na siderurgia, onde o carvão ainda alimenta quase 75% da produção. Até agora, poucas instalações siderúrgicas à base de hidrogênio operam em escala comercial mundo afora — em grande medida, pela baixa demanda e falta de investimento.
Esses novos projetos chegam em um momento crítico para o Brasil, maior produtor de aço da América Latina e com um setor que agora está focado nas pressões externas do mercado global de aço.
“A principal preocupação da indústria siderúrgica brasileira tem sido a entrada de aço chinês, reduzindo drasticamente os lucros”, disse Germano Mendes de Paula, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, ao Dialogue Earth.
Entre janeiro e setembro de 2025, as importações brasileiras de aço chinês aumentaram 25,9% em relação ao período anterior, segundo dados do Instituto Aço Brasil, principal associação do setor siderúrgico no país.
Outros países também aumentaram suas importações da China, maior nação siderúrgica do mundo, à medida que os produtores locais encontraram novos mercados para vender seu excedente de produção.
Ao mesmo tempo, a indústria brasileira tem enfrentado dificuldades para competir com os preços chineses e questiona o que considera um apoio “desleal” do governo chinês às suas siderúrgicas. Em fevereiro, o Brasil instituiu medidas antidumping — ou seja, para combater a comercialização de itens abaixo do custo de produção — contra alguns produtos de aço chinês.
Algumas siderúrgicas brasileiras se viram forçadas a limitar seus investimentos e restringir sua capacidade de incorporar fontes renováveis em seus processos produtivos. “O contexto não é exatamente favorável para que as siderúrgicas brasileiras entrem em um processo acelerado de descarbonização, principalmente porque os investimentos necessários são muito altos”, disse Mendes de Paula.
Apesar disso, o Brasil segue chamando a atenção de analistas e investidores por suas vantagens nesse mercado: o país está bem estabelecido entre os principais produtores e exportadores mundiais de minério de ferro de alta qualidade, insumo essencial para a siderurgia; tem uma das redes elétricas mais limpas do mundo; e vem expandindo sua capacidade de energia renovável, principalmente solar e eólica. Com isso, o país já atraiu mais de US$ 18 bilhões em investimentos em projetos de hidrogênio verde.
“Há imperativos ambientais e climáticos, mas, além disso, a agenda do aço de baixo carbono é estratégica para fortalecer a indústria brasileira”, disse Julia Cruz, secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em entrevista ao Dialogue Earth.
Vantagens e limitações
Como em grande parte do mundo, o Brasil ainda depende de altos-fornos alimentados a carvão para sua produção siderúrgica, tornando o setor responsável por cerca de 4% das emissões de gases de efeito estufa do país.
“Nosso aço é, sem dúvida, um dos mais verdes do mundo. Mas há espaço para avançar ainda mais”, disse Cruz.
Algumas estimativas indicam que cada tonelada de aço bruto brasileiro gera de 1,3 a 1,7 toneladas de emissões de CO₂ equivalente — abaixo da média de duas toneladas de CO₂ equivalente em grandes nações siderúrgicas, como China e Índia. Porém, outros cálculos sugerem que a intensidade de carbono do aço brasileiro é mais próxima à marca desses outros países.
Até agora, os esforços de redução de emissões têm se baseado em “medidas de curto prazo, da forma mais viável financeiramente e economicamente possível”, segundo Marc Farre Moutinho, diretor de Brasil no Industrial Transition Accelerator, que fortalece a colaboração intersetorial em descarbonização. Para os altos-fornos do Brasil, ele explicou, o foco tem sido a modernização e as melhorias de eficiência.
A menor intensidade de carbono do aço brasileiro também se deve ao uso de carvão vegetal, ou “biocarvão”, alternativa menos poluente que o carvão mineral, responsável por cerca de 10% da produção nacional de aço. Por causa disso, empresas como a Aço Verde do Brasil tentam se colocar como produtoras de aço neutro em carbono. Porém, o impacto do carvão vegetal nas emissões tem sido bastante contestado.
Outras empresas, como a Gerdau, maior siderúrgica do país, reduziram suas emissões aumentando o volume de sucata de aço reciclada em sua produção. Essa sucata pode ser utilizada em fornos elétricos, resultando em um processo mais limpo, já que 89% da geração de eletricidade brasileira provém de fontes renováveis.
As siderúrgicas brasileiras enfrentarão um desafio comum em todo o mundo caso escolham reduzir suas emissões por meio da sucata de aço: encontrar o material. Há restrições ao abastecimento e à reciclagem interna, enquanto quase 50 países restringiram as exportações de sucata de aço por considerá-la um recurso estratégico para a descarbonização.
Stefania Relva, diretora de transformação industrial do Instituto E+, explicou que essa dinâmica “reforça uma injustiça” em termos comerciais e geopolíticos: “Vemos muitas empresas do Norte Global importando sucata do Sul Global e se beneficiando da descarbonização. Isso está tornando a descarbonização industrial dos países em desenvolvimento ainda mais difícil”.
É nesse contexto que algumas iniciativas estão testando a produção de aço à base de hidrogênio no Brasil, especificamente para o processo de redução direta de ferro (DRI). Atualmente, não há instalações de DRI no Brasil e, globalmente, o processo é quase todo alimentado por gás natural.
Para Relva, isso não seria apenas uma “transição”, mas uma “transformação” total. Porém, ela tem dúvidas se o setor nacional está disposto a embarcar nessa mudança: “A indústria precisaria assumir o risco de uma nova tecnologia, já que não tem a cadeia de suprimentos, e também um novo tipo de energia. São dois grandes riscos”.
Políticas voltadas à indústria
Apesar dessas preocupações, o Brasil tem buscado criar as condições necessárias para limpar seus processos industriais. Desde 2023, o governo federal tem adotado uma abordagem proativa tanto para a política industrial quanto para a agenda climática, antes esvaziada sob a gestão de Jair Bolsonaro.
Recentemente, o governo Lula lançou programas relevantes para o setor: o Plano Clima para a redução de emissões até 2035; a Nova Indústria Brasil, focada em promover uma “indústria mais verde”; e a futura Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial.
Farre Moutinho disse que o foco de quem trabalha pela descarbonização tem sido “reestruturar o debate” de olho no crescimento industrial verde: “Isso transforma a visão da descarbonização como um fardo ou obrigação, ou algo que a indústria precisa fazer, para algo que ela gostaria de fazer”.
As empresas e os fornecedores não avançam rumo à descarbonização, porque não têm sinal claro de demanda. Temos um problema do tipo ‘o ovo ou a galinha’Stefania Relva, diretora de transformação industrial do Instituto E+
A Nova Indústria Brasil, lançada em 2024, deverá receber R$ 300 bilhões em investimentos de diversas fontes até o fim de 2026, com destaque para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Tanto Cruz quanto Farre Moutinho identificaram a necessidade de financiamento a juros baixos para incentivar projetos de descarbonização. “Serão necessários alguns exemplos convincentes de projetos que consigam avançar, que realmente obtenham financiamento e comecem a operar antes que a indústria tradicional comece a agir com mais dinamismo”, explicou Farre Moutinho.
No caso do aço de baixa emissão, bem como do hidrogênio verde e do “ferro verde”, essenciais para sua produção, a indústria brasileira se depara com uma questão: quem está comprando esses produtos?
“As empresas e os fornecedores não avançam rumo à descarbonização, porque não têm sinal claro de demanda. Temos um problema do tipo ‘o ovo ou a galinha’”, disse Stefania Relva, do Instituto E+.
No resto do mundo, a discussão está focada na “recompensa verde” implícita no custo de produção e na boa vontade de quem compra.
Nesse contexto, as compras públicas para projetos de infraestrutura começam a surgir como uma opção. A secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria disse ao Dialogue Earth que sua pasta está trabalhando junto a outros ministérios para implementar uma nova estratégia de compras públicas para o desenvolvimento sustentável, lançada no fim de 2025.
Farre Moutinho disse que as compras públicas também foram tema das conversas do Acelerador de Transição Industrial junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. “Medidas do lado da demanda são, em última análise, a peça mais importante a ser desbloqueada”, acrescentou. “Se você conseguir isso, a tecnologia, a pesquisa e o financiamento seguem junto”.
Busca por cooperação global
Um dos principais obstáculos para encontrar mercados para o aço de baixo carbono e outros produtos semelhantes é a falta de padronização entre os países.
“Ainda não temos consenso sobre o que é ‘aço verde’”, disse Relva. “Podemos chegar a um acordo sobre limites de carbono, mas há dúvidas quanto à forma como contabilizamos essas emissões”.
Isso voltou a ganhar força após a entrada em vigor da nova taxa de carbono da União Europeia para produtos importados. De acordo com a nova regra, importadores são obrigados a revelar as emissões ligadas às suas compras, com uma penalidade caso estas excedam um certo limite.
O Brasil exportou um terço de suas 33 milhões de toneladas de aço produzido em 2025, e as vendas para a Europa dobraram em comparação com 2024. Para Cruz, a normativa traz preocupação para a indústria brasileira. “Só porque algo é do interesse da sustentabilidade não significa que possa ser imposto unilateralmente por qualquer um”, criticou. Atualmente, o governo federal está preparando “mecanismos para responder a essa situação”, acrescentou.
Entre essas iniciativas, está o lançamento do mercado de carbono do Brasil, que deve incluir os setores de aço e ferro. A normativa europeia permite algumas isenções se os mercados de carbono dos países vendedores estiverem alinhados com o próprio esquema de comércio de emissões da União Europeia. Cruz disse que o Brasil vai reivindicar tais isenções assim que seu mercado de carbono estiver funcionando e pediu cooperação multilateral para a precificação do carbono.
Relva, do Instituto E+, também falou da necessidade de mais debates sobre produtos emergentes, como o ferro verde, forma sólida do metal processada com uso de energias renováveis, da qual o Brasil é visto como um potencial fornecedor: “Temos três países com um dos maiores potenciais para produzir ferro verde: Brasil, Austrália e África do Sul. E temos três regiões que poderiam ser as maiores compradoras desses produtos: China, Índia e Europa. Mas não há um fórum onde esses seis países estejam discutindo isso”.
Ela destacou o Fórum Integrado sobre Mudanças Climáticas e Comércio, lançado na COP30 no Brasil, como um possível espaço para isso. “A ideia é, de certa forma, tentar criar uma Organização Mundial do Comércio, mas para produtos verdes”, acrescentou.
Mendes de Paula, da Universidade Federal de Uberlândia, é um pouco mais cauteloso quanto às perspectivas de produção de aço e ferro de baixo carbono em grande escala no Brasil: “Não sou pessimista quanto a essa possibilidade, mas, depois de acompanhar o setor por mais de 35 anos, vi vários projetos que nunca saíram do papel”.
Da mesma forma, ele pediu que a descarbonização do aço brasileiro fosse colocada em uma perspectiva global: “Como um projeto com custos operacionais muito mais altos pode ser economicamente justificado quando a indústria siderúrgica chinesa exporta grandes quantidades de aço com alto nível de emissões? A discussão sobre descarbonização não deve ser separada da questão do comércio internacional”.
Flávia Milhorance colaborou com a reportagem.

