Energia

Eleição colombiana é teste de fogo para política anti-petróleo

Candidato de extrema direita aposta na retomada de combustíveis fósseis e ameaça esforços da Colômbia contra dependência da indústria petrolífera
<p>Apoiadores do governo colombiano em ato no Dia Internacional dos Trabalhadores, Medellín. O segundo turno da eleição presidencial decidirá o futuro das políticas energéticas e ambientais da atual gestão (Imagem: <a href="https://flic.kr/p/2saDDTo">Joel González</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/197399771@N06/">Presidência da República da Colômbia</a>, <a href="https://creativecommons.org/publicdomain/mark/1.0/deed.pt-br">PDM</a>)</p>

Apoiadores do governo colombiano em ato no Dia Internacional dos Trabalhadores, Medellín. O segundo turno da eleição presidencial decidirá o futuro das políticas energéticas e ambientais da atual gestão (Imagem: Joel González / Presidência da República da Colômbia, PDM)

Até 2024, o principal clube de futebol de Barrancabermeja, cidade de 200 mil habitantes na região central da Colômbia, chamava-se Alianza Petrolera FC. Alguns de seus apelidos eram “os petroleiros” ou “os refinadores”, em alusão à maior refinaria de petróleo do país, onde são processados até 65% dos combustíveis colombianos. Naquele ano, o clube mudou o nome para Alianza FC, abandonando as referências à indústria petrolífera.

Barrancabermeja, no entanto, mantém sua ligação com o “ouro negro”. A presença da refinaria domina o horizonte da cidade há mais de cem anos.

Assim como em outros países da América Latina, a estatal petrolífera Ecopetrol é uma peça importante da economia colombiana, com operações que ainda representam ao menos 2% do produto interno bruto do país.

O atual presidente, Gustavo Petro, tentou mudar esse cenário ao longo de seu mandato. Quando assumiu o cargo em 2022, ele suspendeu a concessão de novas licenças de óleo e gás. Além disso, colocou o país na liderança de um movimento global contra os combustíveis fósseis, criando zonas livres de mineração pesada e exploração de hidrocarbonetos. Em abril, a cidade de Santa Marta, na costa norte do país, sediou a primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. O evento buscou formar uma coalizão de países que concordam com a necessidade de abandonar o petróleo e o gás de suas matrizes energéticas. 

Petro teve um governo difícil, terminando com um baixo índice de aprovação. Sua gestão foi marcada, entre outros fatores, por tentativas frustradas de negociação com os grupos armados do país e promessas de reformas sociais que apenas avançaram timidamente. Agora, suas políticas contra os combustíveis fósseis podem estar com as horas contadas.

Os colombianos votarão por um novo presidente este fim de semana. As pesquisas indicam uma provável vitória de Abelardo de la Espriella, advogado e empresário que representa a extrema direita no segundo turno. Ele defende a extração petrolífera por meio do fracking — nome em inglês para fraturamento hidráulico, técnica altamente questionada por seus riscos ambientais. 

Uma vitória de De la Espriella representaria um revés para as atuais políticas de transição energética da Colômbia.

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Cédula eleitoral do primeiro turno das eleições colombianas, realizadas em 31 de maio. No segundo turno, Iván Cepeda e Abelardo De La Espriella prometem planos diametralmente opostos para a indústria de óleo e gás (Imagem: Santiago Chimbaco / Imago / Alamy)

Mudança de rota?

Além das operações de óleo e gás, a Ecopetrol foi impulsionada pelo governo Petro a diversificar suas atividades, inclusive no setor de energias renováveis. Em 2024, mais de 40% do orçamento da empresa foi dedicado à transição energética; a participação das energias renováveis na geração elétrica também cresceu de 2% para 15% nos últimos três anos. 

“Acho que devemos aplaudir Petro por sua liderança nessa agenda”, disse Gustavo Pinheiro, analista do think tank de energia E3G. “Ele mostrou que é possível sair da palavra para a ação e liderar pelo exemplo”.

Porém, mesmo com a suspensão de novas concessões de exploração de combustíveis fósseis, isso não afetou os 381 contratos de produção já em vigor. As propostas da atual gestão para proibir definitivamente o fracking também não tiveram sucesso no Congresso. 

Muitas das conquistas ambientais da administração Petro foram implementadas por decreto, facilitando sua revogação em próximos governos. 

Em sua campanha, De la Espriella classificou a soberania energética como uma questão de segurança nacional e foi cético em relação a uma transição energética com ritmo mais acelerado. “Um país sério não abre mão de seu gás por um capricho ideológico”, afirmou o candidato. De acordo com ele, isso significa “desenvolver os campos já descobertos mais rapidamente” e “desbloquear” a produção.

No primeiro turno das eleições, em 31 de maio, De la Espriella liderou a contagem com mais de 43% dos votos. Cepeda, candidato governista do Pacto Histórico, obteve 41%.

Vazamento de óleo perto de Barrancabermeja
Vazamento de óleo perto de Barrancabermeja, em 2018. Pescadora local diz temer o impacto da exploração petrolífera nas populações de peixes (Imagem: Natalia Ortiz Mantilla / dpa / Alamy)

Barrancabermeja com Cepeda

Os planos de Petro para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis encontraram uma forte oposição do setor. Segundo o principal sindicato dos trabalhadores do petróleo da Colômbia, a Ecopetrol sustenta cerca de cem mil empregos no país. 

De forma geral, a população colombiana também é bastante cética em relação a essas políticas. Uma pesquisa de 2025 com quase 2,5 mil pessoas em 141 municípios revelou que 78% concordavam que a indústria de óleo e gás era necessária para financiar os investimentos públicos e os programas sociais do governo. Além disso, 80% consideravam positivo o papel da indústria petrolífera na Colômbia.

“A ideia da transição foi provavelmente a [política] mais atacada desde o início do governo Petro”, afirmou Andrés Gómez, coordenador latino-americano da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis.

Para Pinheiro, do E3G, a resposta inicial de investidores também foi negativa: “Os mercados ficaram abalados no curto prazo. Porém, depois tudo voltou ao normal, como costuma acontecer, e não foi o fim do mundo. Esse é um dos desafios que precisamos superar”.

Essas preocupações econômicas também serviram de combustível para a campanha de De la Espriella.

O argumento de que o petróleo e o gás são um caminho para a riqueza do país ainda convence muita gente. Porém, a realidade é que os combustíveis fósseis seguem precisando de enormes subsídios estatais, enquanto os custos das tecnologias de energia renovável estão caindo rapidamente. “A transição já está acontecendo na economia real”, observou Pinheiro. “O preço da energia eólica e solar é extremamente competitivo em toda a América Latina”.

Algumas das populações mais afetadas pela indústria do petróleo já mostram que esperam um futuro diferente. Em Barrancabermeja, capital petroleira da Colômbia, quase 60% dos eleitores votaram em Cepeda no primeiro turno. O candidato de esquerda prometeu levar adiante as políticas energéticas de Petro.

A pescadora Yuly Velásquez, que navega pelos rios próximos a Barrancabermeja, disse temer o impacto da exploração de petróleo nas populações de peixes: “Estamos chocados com a sem-vergonhice [dos políticos de direita], que dizem que o desenvolvimento socioeconômico está em risco. O fracking é o que geraria mais fome e deslocamento de pessoas”.

Futuro da coalizão contra combustíveis fósseis

A Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que atraiu participantes de 57 países, surgiu da frustração com o andamento das negociações nas cúpulas climáticas das Nações Unidas. Embora a conferência COP28 de Dubai tenha chegado a um acordo para o “início do fim” da era dos combustíveis fósseis, as edições seguintes não avançaram nisso.

A conferência ocorreu fora do sistema da ONU e não exigiu compromissos juridicamente vinculantes às nações presentes. Mesmo assim, o encontro convocou os participantes a elaborar planos nacionais de combate aos combustíveis fósseis. A segunda edição do evento, marcada para o próximo ano, será sediada em Tuvalu.

Mesmo com uma possível vitória de De la Espriella, o trabalho da iniciativa continua. “Agora temos a Irlanda e Tuvalu na liderança do processo de Santa Marta, e isso é realmente útil”, afirmou Gómez, do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis. “A Colômbia fez um bom trabalho pelo movimento. Há um caminho real que nós, como movimento global, precisamos seguir”.

Enquanto isso, ambientalistas colombianos como Yuvelis Morales Blanco, de Puerto Wilches – vencedora do Prêmio Goldman deste ano por seu trabalho contra o fracking –, estão profundamente preocupados com a retórica de De la Espriella sobre os combustíveis fósseis. Ela enfrentou ameaças em resposta à sua campanha. “É extremamente irresponsável e desrespeitoso para as comunidades que algo tão importante seja tratado de forma tão leviana”, disse. “Para nós, as discussões sobre o fracking quase nos custaram a vida”.

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