“O México provou que pode desenvolver tecnologias e soluções”, disse a presidente mexicana Claudia Sheinbaum no lançamento do primeiro carro elétrico de baixo custo produzido em massa no país. O Olinia foi apresentado em junho, junto ao primeiro ônibus elétrico fabricado no México.
A partir de 2027, mexicanos poderão comprar o Olinia, veículo totalmente elétrico de seis lugares, por 150 mil pesos mexicanos (R$ 44 mil).
Em 2025, tive a oportunidade de participar do início do projeto Olinia. Na época, parecia extremamente ambicioso o prazo de dois anos estabelecido para desenvolver e lançar um veículo elétrico (VE) acessível. Porém, testemunhar esse processo em primeira mão me convenceu de que o México almeja algo maior do que um novo automóvel: trata-se de uma nova abordagem para sua política industrial, unindo agilidade, inovação e colaboração.
Nossa pesquisa no Global South Center for Clean Transportation mostra que a participação dos VEs fabricado no Sul Global, excluindo a China, triplicou desde 2020. Em uma década até 2025, as vendas tiveram crescimento anual de 78% em Colômbia, México, Chile e Brasil.
Os governos estão enxergando a transição para os veículos elétricos não apenas do ponto de vista climático, mas também como uma corrida por investimentos, liderança tecnológica e competitividade industrial. E o México entrou na disputa.
O setor automotivo mexicano — voltado quase totalmente à exportação, com mais de 70% dos veículos leves vendidos para os Estados Unidos — está estruturalmente exposto à volatilidade da política comercial e tarifária de seu vizinho do norte.
Agora, o México tem uma oportunidade única: revitalizar sua estratégia industrial por meio de veículos elétricos, atrair investimentos ao longo de toda a cadeia de valor e emergir como o principal fabricante do setor da América Latina.
Projeto Olinia
O financiamento e a concepção do projeto Olinia vieram do Estado mexicano, e não do setor privado. Quando foi pensado no final de 2024, seu objetivo principal não era construir um VE acessível para a mobilidade urbana, e sim fortalecer a capacidade de pesquisa e desenvolvimento de universidades e instituições públicas mexicanas.
Em 2025, sob a liderança do engenheiro Roberto Capuano, o Olinia evoluiu. O projeto tornou-se uma oportunidade de o México aproveitar sua expertise automotiva e o talento local para desenvolver veículos voltados ao seu próprio mercado.
O país espera que, até 2030, metade dos veículos vendidos no mercado interno tenha zero emissões de carbono. Até 2025, apenas 7% atingiram essa meta.
Estima-se que haja uma grande demanda nacional por veículos elétricos pequenos e compactos, impulsionada por serviços de transporte por aplicativo, táxis e empresas que usam vans e furgões, como as de entrega e logística.
Para esses casos, o Olinia surge como uma opção de veículo elétrico acessível, com custo-benefício competitivo, capaz de fortalecer a mobilidade elétrica do México.
Medidas políticas
O próximo grande passo do México é criar um mercado consumidor sólido e com capacidade de expansão para adquirir os veículos de zero emissões.
A implementação da norma de eficiência de combustíveis, a NOM-163, pode ajudar. Ela estabelece a distância mínima que um veículo deve percorrer com uma determinada quantidade de combustível. Quanto mais rígidos forem esses parâmetros, mais caro e complexo se torna para as montadoras adequar seus modelos a combustão às exigências.
Além disso, regras de eficiência estáveis e previsíveis no longo prazo também ajudam a garantir aos investidores que o mercado de elétricos vai continuar crescendo no país. Essa certeza reduz os riscos de investimentos, melhora a coordenação nas cadeias de suprimentos, cria empregos qualificados e aumenta a eficiência fiscal.
Os países bem-sucedidos na transição para os veículos elétricos não serão necessariamente aqueles que aplicarem mais recursos públicos, mas aqueles que criarem as condições de mercado mais claras e confiáveis. Um padrão de eficiência de combustível não é simplesmente uma política climática, mas um mecanismo para a transformação industrial.
A adoção desses veículos por consumidores será igualmente importante. A última pesquisa da Associação de Mobilidade Elétrica do México, publicada este ano, revelou que 90% dos motoristas de VEs voltariam a comprar esses veículos, apesar da fraca infraestrutura de recarga do país. Um dos principais motivos é financeiro: menos custos de manutenção e incentivos fiscais a seus proprietários.
No México, o mercado de VEs não é mais formado apenas por motoristas preocupados com o meio ambiente, mas por consumidores em busca de economias no médio a longo prazo. Por isso, aliar incentivos fiscais com segurança regulatória será essencial para o país promover uma transformação sustentável de seu mercado automotivo.
Em um momento em que a indústria automotiva global está sendo reinventada, o Olinia pode marcar um novo capítulo industrial do México. Seu verdadeiro legado não será medido em vendas, mas na forma como o Olinia puder influenciar o rumo da mobilidade no país.
