Mexicali, no norte do México, é conhecida como “a cidade que capturou o sol”. Essa zona desértica na fronteira com os Estados Unidos é o lar de Yolanda Hernández, cuja família enfrenta um grande dilema: suportar as altas temperaturas e colocar a saúde em risco ou usar o ar-condicionado e pagar uma conta de luz alta.
Hernández mora no bairro Ángeles de Puebla, de baixa renda, com seu companheiro e seu filho Angel, de 21 anos. A maioria das casas da vizinhança foi construída pelo Instituto do Fundo Nacional da Habitação para os Trabalhadores, que também oferece financiamento imobiliário a preços acessíveis.
Todo verão, Mexicali registra as temperaturas mais altas do México. Em agosto de 2025, os termômetros bateram recorde, com 52,7 °C. Para lidar com o calor, Hernández usa ar-condicionado em toda a casa e, assim, sua conta de luz vai para três mil pesos mexicanos (R$ 900) por mês.
A renda mensal da família, de seis mil pesos mexicanos, não é suficiente para cobrir esses gastos com energia, as sessões de terapia psicológica de mil pesos mensais (R$ 300) para o filho neurodivergente e outras despesas básicas.
“Era difícil pagar [a conta de luz], porque não teria condições de arcar com a terapia”, contou Hernández ao Dialogue Earth.
Famílias como a dela são o público-alvo do programa Sol do Norte, anunciado em março de 2025 pela presidente mexicana Claudia Sheinbaum. A iniciativa visa combater a pobreza energética por meio de subsídios à instalação de painéis solares em moradias de baixa renda. O programa é destinado principalmente aos lares mais vulneráveis, com menores de idade, idosos, mães solo e pessoas com deficiência.
Um ano após o início do projeto, várias fontes consultadas pelo Dialogue Earth disseram que o saldo tem sido positivo para a economia e saúde das famílias. Porém, conforme especialistas, isso não será suficiente para erradicar a pobreza energética na cidade mais quente do país.
Contas nas alturas
Hernández se inscreveu no programa do governo mexicano em julho de 2025, atraída pela promessa de baratear os custos da conta de luz. Em novembro, as equipes do projeto instalaram os painéis solares em sua casa. “Achei que fosse tudo mentira, mas no fim fui selecionada”, lembrou. “Minha conta de luz diminuiu bastante”. Ela agora paga entre 500 e mil pesos mexicanos por mês (entre R$ 150 e R$ 300), em vez dos três mil de antes.
Em resposta ao pedido de acesso à informação feito pelo Dialogue Earth, a Secretaria de Bem-Estar Social do estado da Baixa Califórnia informou que o programa beneficiou 5.134 famílias em Mexicali e na cidade de San Felipe entre março de 2025 e julho de 2026: “As famílias beneficiárias na Baixa Califórnia conseguiram reduzir seus gastos anuais médios com eletricidade em 60%, alcançando uma economia de até 85% nos meses de pico de consumo do verão”, segundo o órgão.
Em maio deste ano, as autoridades do estado de Sonora anunciaram o lançamento do programa em cinco mil residências na cidade de Hermosillo, no noroeste do México.
Ativistas e acadêmicos alertam que muitas famílias em condições de vulnerabilidade ainda não se beneficiaram do programa. Segundo especialistas, o programa precisa ser complementado por outras medidas, como subsídios mais altos às contas de energia e a substituição de eletrodomésticos antigos por modelos mais novos e eficientes.
Saúde e calor extremo
A família Yolanda Hernández usa o ar-condicionado desde que chegou a Mexicali, há 20 anos. Ao longo desse tempo, a energia elétrica da família foi cortada diversas vezes por inadimplência. Sem ar-condicionado, as temperaturas dentro de casa se tornam perigosas para seu filho e seu companheiro, que já trabalha como jardineiro sob o sol o dia inteiro.
“O desenvolvimento mental do meu filho está na metade da sua idade real; por isso, para ele, o calor é como deixar uma criança exposta ao sol”, explicou. “Ele fica angustiado e inquieto; temos que dar banho nele de vez em quando”.
O corpo humano regula sua temperatura interna para cerca de 37 °C por meio da evaporação do suor. Quando o corpo absorve mais calor do que consegue liberar, isso causa estresse térmico, o que pode provocar sintomas que vão desde tontura e desmaio até danos renais e morte.
Entre março e setembro, 56 pessoas morreram no estado da Baixa Califórnia devido ao calor extremo, segundo dados do Ministério da Saúde do México. A maioria dos casos teve relação com insolação e ao menos três foram provocados por desidratação.
Além do programa de energia solar, a cidade instalou pontos de hidratação para prevenir problemas de saúde relacionados ao calor extremo. Desde que a Lei Geral de Mudanças Climáticas do México foi aprovada em 2012, Mexicali vem alertando que as temperaturas extremamente altas do estado terão grandes impactos na saúde pública, na produtividade e no consumo de energia.
A experiência de Boston
Além do México, outros lugares têm encontrado nos painéis solares uma estratégia de proteção à saúde para comunidades vulneráveis.
Patricia Fabián, diretora associada do Instituto para a Sustentabilidade Global da Universidade de Boston, nos EUA, concorda que iniciativas para subsidiar painéis solares trazem benefícios significativos à saúde.
O Boston Medical Center, por exemplo, administra o programa Prescrição de Energia Limpa: com a iniciativa, os painéis solares instalados no centro médico geram créditos de energia, por sua vez concedidos a pacientes de baixa renda para reduzir suas contas de luz em casa.
Projetos de energia solar também foram desenvolvidos em outras cidades dos EUA, incluindo Phoenix, no estado do Arizona. Lá, o governo local fez uma parceria com a Solar United Neighbours para instalar sistemas de energia renovável em dez residências entre 2023 e 2024. A economia de eletricidade chega a uma média de quase US$ 1 mil por ano para cada família.
Um relatório sobre o projeto de Phoenix constatou que ele ajudou seus participantes a baixar as temperaturas de suas casas sem preocupações com os custos da conta de luz. Os beneficiários do programa afirmaram que se sentiam “orgulhosos de fazer parte da solução para combater as mudanças climáticas”.
Em Chelsea, no estado de Massachusetts, uma microrrede solar com centenas de painéis solares ajuda no abastecimento elétrico dos prédios. No futuro, o sistema idealizado pela organização GreenRoots e administrado pela prefeitura poderá beneficiar também famílias de baixa renda que enfrentam dificuldades com as contas de energia.
Fabián acrescenta que, atualmente, os painéis solares e outras medidas de economia de energia geralmente entram na discussão da redução das emissões de gases de efeito estufa. Já os benefícios diretos à saúde, com um potencial enorme, muitas vezes são ignorados.
Calor extremo sem eletricidade
Ativistas e acadêmicos em Mexicali esperam que o programa de painéis solares da cidade consiga crescer e se aperfeiçoar, para alcançar mais famílias em condição de pobreza energética.
Gabriela Muñoz Meléndez, professora de estudos urbanos e meio ambiente na Faculdade da Fronteira Norte do México, afirmou que o programa de painéis solares deve superar os desafios enfrentados por iniciativas anteriores em Mexicali. Ela analisou o programa do Vale das Missões, lançado em 2007, que forneceu energia solar e isolamento térmico a 220 moradias populares. Segundo ela, alguns moradores simplesmente acabaram usando os painéis como mesas, enquanto outros optaram por “roubar o cobre”.
Para Muñoz, a solução é a elaboração de inventários de todos os eletrodomésticos envolvidos no programa, seguida pela substituição dos itens de menor eficiência energética – reduzindo, assim, o consumo de energia desde o início. De acordo com ela, também são necessárias análises estruturais e elétricas para garantir que os painéis solares possam ser instalados corretamente em cada residência.
Até 46,6 milhões de mexicanos vivem em situação de pobreza energética, incluindo 18% dos domicílios concentrados ao longo da fronteira com os EUA, conforme uma análise do Ministério da Energia publicada em 2022.
Sergio Tamai García, que lidera a Frente Cívica de Mexicali, disse que o grupo de moradores compilou mais de 600 reclamações sobre contas de luz com valores “absurdos”.
As tarifas de eletricidade do México foram definidas há décadas pela Comissão Nacional de Águas, com base em dados de temperatura média. Para Mexicali, esse limite foi fixado em 33 °C na época, mas essa média deve subir entre 1,7 e 1,9 °C de 2010 a 2039.
Tamai afirmou ao Dialogue Earth que está tentando marcar reuniões com as autoridades federais para solicitar uma redução na tarifa de energia elétrica de Mexicali. Ela espera que essa tarifa reflita melhor as temperaturas atuais.
Uma das “contas absurdas” que García recebeu atingiu os 90 mil pesos (R$ 27 mil), em uma cidade onde o salário mínimo é de 441 pesos (R$ 132) por dia.
Essas contas exorbitantes fazem com que várias famílias se tornem inadimplentes. E, embora a temperatura tenha atingido 51,9 °C em julho, “ainda ocorrem cortes de energia”, disse Tamai. Isso coloca em sério risco a saúde da população.
No caso de Hernández e sua família, porém, as perspectivas são positivas com a energia solar: “Com essa economia, temos mais dinheiro do salário do meu companheiro para comida, para as compras de supermercado e para levar meu filho à terapia”.
Para Hernández e outros mexicanos igualmente afortunados, a energia solar permite que agora eles possam aproveitar a principal fonte de calor como forma de se refrescar – na “cidade que capturou o sol”.
Esta reportagem do Dialogue Earth faz parte do projeto Community Adaptations to City Heat, em parceria com a Universidade de Boston. O projeto é financiado pela organização Wellcome.

