Quando o México entrar em campo para a abertura da Copa do Mundo de futebol masculino em junho, pessoas de todo o mundo estarão grudadas em frente à televisão ou sentadas nas arquibancadas. Porém, para aqueles que moram perto do icônico Estádio Azteca, um tema preocupa mais do que a bola rolando: a falta d’água.
A Copa de 2026 será a primeira co-organizada por três nações: os jogos serão realizados em 16 cidades no México, nos Estados Unidos e no Canadá. O México sediará 13 das 104 partidas — cinco delas na capital — e espera receber 5,5 milhões de visitantes além do habitual em junho.
O evento deve gerar US$ 620 milhões em vendas de ingressos, hospedagens e outros gastos turísticos na Cidade do México. Além de uma reforma de US$ 110 milhões (R$ 575 milhões) no Azteca, autoridades anunciaram obras ambiciosas no entorno. Entre elas, estão uma ciclovia de 34 quilômetros no centro da cidade, a repavimentação das ruas ao redor do estádio e a construção de uma passarela elevada de 1,5 quilômetro na Avenida Tlalpan, que conecta o centro histórico à zona sul da cidade.

Félix Aguirre, diretor do Azteca — recentemente renomeado como Estádio Banorte — afirmou que a renovação do local histórico para o futebol busca estender seu funcionamento pelas próximas cinco décadas.
Porém, para quem vive perto dali, essa onda de investimentos públicos apenas fez crescer as preocupações com o já problemático abastecimento de água na cidade.
Na área próxima do Azteca, há três poços de água subterrânea. Mas, nos últimos 12 anos, a água só chegou duas ou três vezes por semana na casa da família de Norma Piñón, no bairro de Santa Úrsula Coapa.

Quando há abastecimento, a família enche as caixas d’água do pátio e do telhado. Piñón também reaproveita a água da lavanderia para limpar o chão e regar as plantas. “Precisamos saber reutilizá-la”.
O bairro é composto principalmente por residências familiares construídas pelos próprios moradores, como a de Piñón. Porém, uma imobiliária adquiriu recentemente um terreno atrás da casa dela e começou a construir um moderno conjunto residencial com 19 apartamentos. O prédio de oito andares na rua Popocatepetl vai contrastar com as casas ao redor.
De acordo com os moradores, um anúncio publicitário promovia a localização estratégica dos apartamentos para a próxima Copa do Mundo da Fifa. Piñón está preocupada que esse empreendimento pressione o abastecimento hídrico local para além de sua capacidade. “Não sei de onde vão tirar a água”, disse Piñón.
Entre os ambiciosos planos de infraestrutura para a Copa do Mundo, o governo da Cidade do México anunciou obras de regeneração urbana para três bairros: Santa Úrsula, Pueblo de Santa Úrsula e San Lorenzo Huipulco. Essas obras incluiriam melhorias no abastecimento de água potável e a construção de coletores de águas pluviais.
Mas, para os moradores que passaram anos sem acesso estável à água e que acusam autoridades e incorporadoras privadas de falta de transparência, há motivos para desconfiar.

Desigualdade hídrica
Antes da colonização, habitantes do Vale de Anáhuac — como era conhecida a área metropolitana da Cidade do México — tinham uma relação harmoniosa com a água. É o que explicou Gonzalo Hatch Kuri, professor de geografia da Escola Nacional de Ciências da Terra da Universidade Nacional Autônoma do México. Hoje, em meio ao rápido desenvolvimento urbano, moradores enfrentam interrupções no abastecimento. “O problema não é a escassez”, disse Hatch Kuri. “O problema é a distribuição desigual da água”.
A Cidade do México obtém água de três fontes principais: uma rede de aquíferos na cidade e na área metropolitana; uma cadeia de reservatórios conhecida como sistema Lerma-Cutzamala; e uma série de barragens que começam no estado ocidental de Michoacán. Todos esses sistemas alimentam a rede que fornece água potável às residências.
O setor imobiliário é um dos que mais consome água na Cidade do México, de acordo com dados da Secretaria de Gestão Integral da Água da capital. No caso de novos empreendimentos, empresas são obrigadas a apresentar estudos que comprovem a capacidade de abastecimento hídrico.

Moradores de Santa Úrsula Coapa dizem que o novo projeto imobiliário atrás da casa de Piñón não tem as licenças e estudos necessários para dar continuidade à construção. No início de dezembro, autoridades municipais fecharam o canteiro de obras, mas vídeos gravados por vizinhos sugerem que os trabalhos de construção continuam.
Igualmente controversa foi a licença concedida ao grupo Televisa, proprietário do Estádio Azteca. A empresa havia solicitado uma autorização para a criação de um complexo com shopping centers, hotéis e escritórios ao lado do estádio. O projeto foi suspenso devido à pressão dos moradores do bairro, mas a licença foi concedida mesmo assim. Isso alimenta o receio de que o empreendimento ainda possa avançar no futuro.
Santa Úrsula Coapa é um dos bairros fundadores da Cidade do México, com um status diferenciado: a comunidade tem seu próprio governo e poderes de planejamento urbano. O líder comunitário, Ruben Ramírez, disse que a consulta prévia para as obras da Copa — obrigação prevista em lei — não foi realizada antes da concessão da licença.
Em um mapa exibido por moradores de Santa Úrsula Coapa, a Comissão Nacional da Água classificou o bairro como zona de alto risco para o estresse hídrico devido à intensa exploração da água.
“Isso implica um risco para toda a comunidade ao redor do estádio, porque o aquífero está em níveis muito baixos”, disse Ramírez ao Dialogue Earth. “Estamos totalmente no direito de exigir que a concessão seja revogada. Ela não cumpre nenhum dos parâmetros estabelecidos em lei e viola os direitos da comunidade indígena de Santa Úrsula”.

Há poucas informações oficiais sobre a extração de água na Cidade do México. O governo municipal também não fornece um registro público das concessões para empresas privadas.
A Secretaria de Gestão Integral da Água não respondeu às tentativas de contato da reportagem. Também não conseguimos contatar representantes da Televisa.
Ativistas da água
Em julho, centenas de pessoas foram às ruas do sul da Cidade do México em uma marcha contra a gentrificação ligada à Copa do Mundo. Foi a segunda de uma série de mobilizações recentes contra o aumento do custo de vida com a chegada em massa de cidadãos europeus e americanos. Luis Alberto Salinas Arreortua, geógrafo da Universidade Nacional Autônoma do México, alertou para os riscos de um eventual deslocamento da população local.
Entre os manifestantes, havia membros da Frente pela Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e dos Bairros da Bacia do Anáhuac. A organização, que defende os direitos dos bairros fundadores e indígenas da cidade, é contrária a pelo menos 50 megaprojetos imobiliários em toda a Cidade do México.


Em comum nessas disputas está a superexploração da água, agravada por empreendimentos imobiliários que pressionam ainda mais o sistema hídrico da cidade. Moradores da zona sul relatam que o acesso à água diminuiu após a construção de shopping centers e edifícios residenciais nas proximidades.
“O capital imobiliário sonha em vir para o sul da cidade para obter a água da população”, afirmou Alejandro Ortiz, membro da Frente.
O grupo divulgou um relatório em janeiro de 2025 detalhando a demanda estimada de água de projetos em andamento, incluindo vários nas redondezas do Estádio Azteca: por exemplo, a expansão do shopping center Gran Sur, com demanda de 109.650 litros de água por dia; e as três torres residenciais do condomínio Mantik Luis Cabrera, que exigem 408.280 litros para 586 apartamentos.

Em 2017, uma pesquisa realizada pela Universidade de Central Lancashire, no Reino Unido, abordou as violações dos direitos humanos relacionadas aos “megaeventos”, como a Copa do Mundo. O estudo constatou que há uma “rotinização dos danos às populações locais”.
A Fifa, organizadora do torneio, não respondeu até o fechamento da reportagem. Algumas das últimas Copas do Mundo trouxeram outros tipos de problemas, como o deslocamento forçado de moradores de favelas no Brasil e denúncias de violações contra trabalhadores migrantes no Catar.