Clima

‘Precisamos de uma transição verde que faça parte do bem-viver’

Economista Mariana Mazzucato explica por que modelos econômicos tradicionais são insuficientes e como os países podem empoderar suas comunidades por meio da cultura
<p>Manifestantes pedem fim da exploração de combustíveis fósseis na COP30, em Belém. Para Mariana Mazzucato, trabalhar com comunidades e seus conhecimentos tradicionais é fundamental para as discussões sobre clima e indústria (Imagem: <a href="https://www.flickr.com/photos/unfccc/54934377099/in/album-72177720330422806">Zô Guimarães</a> / <a href="https://www.flickr.com/people/unfccc">UN Climate Change</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/deed.en">CC BY NC SA</a>)</p>

Manifestantes pedem fim da exploração de combustíveis fósseis na COP30, em Belém. Para Mariana Mazzucato, trabalhar com comunidades e seus conhecimentos tradicionais é fundamental para as discussões sobre clima e indústria (Imagem: Zô Guimarães / UN Climate Change, CC BY NC SA)

A economista ítalo-americana Mariana Mazzucato defende que os governos não devem se limitar a corrigir as falhas do mercado, mas sim moldar ativamente o crescimento econômico. 

Ela já ocupou diversos cargos de alto nível em órgãos multilaterais e atualmente é diretora do Instituto de Inovação e Propósito Público da University College London. 

Seu livro mais recente, The Common Good Economy (“A economia do bem-comum”, sem edição em português), oferece um norte para encontrar novos modelos econômicos que “funcionem para todos”.

Agora, ela tem sua atenção voltada para um aspecto negligenciado da estratégia climática: a cultura.

Nesta entrevista para o Dialogue Earth, Mazzucato explica por que a arte, os rituais locais e as práticas criativas são tão importantes para uma transição verde quanto as redes de energia. Ela descreve por que os planos tecnocráticos ficam limitados sem a participação das comunidades e destaca a necessidade de garantir que a inteligência artificial não aumente a desigualdade.

Mariana Mazzucato, mulher branca de cabelo castanho claro e curto
Mariana Mazzucato afirma que a cultura, o bem-estar e o desenvolvimento humano são o verdadeiro objetivo da economia (Imagem: University College London)

Dialogue Earth: Você defende que a cultura é fundamental para enfrentar a crise climática. O que a convenceu disso?

Mariana Mazzucato: A abordagem atual não está funcionando. As soluções climáticas estão sendo concebidas de forma desconectada da estrutura do capitalismo e, consequentemente, da direção do crescimento econômico. O crescimento econômico não é um bem neutro. O crescimento tem uma direção, não apenas uma taxa, e precisamos de uma transição verde que faça parte daquilo que as pessoas imaginam como o bem viver. 

Escrevo em meu novo livro que a cultura, o bem-estar, a alegria e o desenvolvimento humano são o objetivo da economia. A questão é como estruturamos as ferramentas econômicas para alcançá-lo. Como diz Celso Furtado, ex-ministro da Cultura do Brasil, política cultural é política de desenvolvimento.

Um artigo recente seu serviu de base para um seminário que reuniu um presidente da COP do Clima, um cenógrafo, um líder indígena, um músico e um cientista climático. O que surge em uma sala como essa que não surgiria em uma cheia de economistas?

Não é por acaso que Franklin D. Roosevelt incluiu artistas e designers na Administração de Projetos de Trabalho do New Deal. As artes e as práticas criativas têm um enorme impacto na definição do que consideramos possível.

Como disse o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, “se você quer construir um navio, não mobilize as pessoas para coletar madeira… ensine-as a ansiar pela imensidão infinita do mar”.

Em segundo lugar, não existe um plano único elaborado por especialistas sobre como teremos sucesso na transição verde, nem mesmo sobre como seria esse sucesso. É aí que entra a bússola do bem comum. Ela possui cinco elementos: propósito e direcionalidade; cocriação e participação; aprendizagem coletiva e compartilhamento de conhecimento; acesso para todos e compartilhamento de recompensas; e transparência e prestação de contas. 

Por exemplo, escrevi com meu colega Damon Silvers sobre a greve dos trabalhadores automotivos dos EUA, na qual eles pressionaram por melhores empregos na indústria de veículos elétricos.

A cultura precisa ser integrada à política industrial, não isolada em um silo

Por que a cultura precisa de uma linha de pesquisa dedicada, em vez de ser apenas uma nota de rodapé na política industrial?

Em meu artigo “Mudanças Climáticas e Cultura”, falei sobre trabalhar com as comunidades, e não contra elas. A ideia é usar o conhecimento e os recursos já existentes, em vez de impor soluções vindas de fora. 

Nele, apresento dois exemplos contrastantes. A estrutura REDD+ da ONU, aplicada ao Fundo Amazônia, usou cálculos de custo de oportunidade feitos pela consultoria McKinsey. Esses cálculos atribuíam à indústria extrativa um valor econômico maior do que à agricultura rotativa de pequena escala praticada por povos tradicionais. 

Em contrapartida, o Projeto Esperançar, na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, reconhece que a cultura tradicional e o cuidado com a floresta estão interligados e apoia ambos. É por isso que a cultura precisa ser integrada à política industrial, e não isolada em um silo.

Você argumentou que o governo não deveria terceirizar a política de saúde ou a política industrial. Como isso se aplica ao clima e à cultura?

As instituições públicas precisam ter a capacidade de elaborar e implementar políticas para uma economia que sirva às pessoas. A bússola da economia do bem comum ajuda no “como”: cocriação, compartilhamento de conhecimento e transparência. 

Nada disso funciona se o governo terceirizar de forma opaca a política climática para consultorias. A verdadeira consulta e o ato de ouvir são uma capacidade fundamental em falta. Se as pessoas não se sentirem incluídas, as políticas serão menos eficazes, menos resilientes ou enfrentarão oposição direta. Para fazer uma boa transição, precisamos governar bem e de maneira diferente do que temos feito até agora.

A COP30 no Brasil foi anunciada como uma conferência de implementação, com o objetivo de avançar nos planos para mobilizar financiamento climático e um mecanismo de transição justa. Trata-se de uma mudança real ou ainda estamos elaborando planos mais rapidamente do que conseguimos implementá-los?

Os governos costumam estar mais interessados em lançar novos planos do que em cumprir os já existentes. Precisamos criar o plano certo em conjunto e segui-lo à risca. 

Em segundo lugar, não se trata apenas do dinheiro, mas de como ele é canalizado e quem se beneficia. Muitas vezes, o dinheiro público apenas preenche uma lacuna em vez de servir de base para um projeto. Os bancos de desenvolvimento podem desempenhar um papel crucial em avaliar como o capital é mobilizado, e precisamos que as parcerias dessas instituições com o setor privado sejam verdadeiramente recíprocas.

Enquanto os EUA se afastam da cooperação multilateral pelo clima e impõem tarifas que alteram o comércio global, como o financiamento climático e a estratégia industrial dessa transição verde serão construídos?

A ordem econômica já estava quebrada. Precisamos construir algo diferente em seu lugar, que funcione para as pessoas e o planeta, em vez de gerar mais desigualdade ou exploração. Não conseguiremos isso com ajustes incrementais, nem com o populismo reacionário de extrema direita e suas tarifas. 

Precisamos ser ousados: moldar a economia, financiar para gerar impacto, construir Estados capazes de forjar colaborações em prol da equidade global. É por isso que lancei o Conselho Global sobre a Nova Economia para o Século 21, reunindo formuladores de políticas públicas, acadêmicos e outros profissionais para repensar os pressupostos que moldam as sociedades.

Como os países podem usar energias renováveis e minerais críticos para agregar valor, em vez de repetir o modelo extrativista prejudicial da era dos combustíveis fósseis?

Esse é exatamente o risco. Cerca de 70% dos minerais críticos estão no Sul Global, e atores como o governo dos EUA estão buscando acordos bilaterais de extração que ignoram condições justas em matéria de tributação ou regulamentação ambiental. 

Precisamos de mais coordenação para impedir intimidações geopolíticas e uma corrida para nivelar as normas por baixo, e os governos precisam ser proativos para que sua política industrial verde construa um ecossistema de inovação.

Mina de cobre em Calama, norte do Chile
Mina de cobre em Calama, norte do Chile. Os três maiores produtores desse mineral crítico estão localizados no Sul Global: Chile, República Democrática do Congo e Peru (Imagem: Paul Plaza / Senado de la República de Chile, CC BY NC SA)

Data centers e IA estão entre os setores que mais aumentam o consumo de energia no mundo. A IA, da forma como é financiada e regulamentada, é compatível com a transição verde?

A IA, como a maioria das inovações, não é inerentemente boa ou ruim. O que importa é como ela é implantada e quem decide sobre isso. 

A governança da IA deve servir ao bem comum por meio de orientação, transparência, cocriação e recompensas compartilhadas. A questão é o que chamei de “feudalismo digital”, em que um pequeno número de empresas detém o controle quase total da governança da IA, apesar de as instituições públicas terem subsidiado o capital intelectual e físico do qual o desenvolvimento da IA depende. 

Criadores por trás da arte e do conteúdo que alimentam as ferramentas de IA estão sendo explorados, em vez de recompensados. 

O desenvolvimento da IA não é uma missão que compete com a transição verde, mas ambos precisam ser concebidos para se complementarem. Não queremos que data centers esgotem as reservas de água para financiar usos da IA que não sirvam ao bem comum. Isso seria o pior dos dois mundos.

Vários países do Sul Global já estão afundados em dívidas e ainda são pressionados a financiar a transição justa. Existe alguma abordagem melhor?

Precisamos de uma nova arquitetura financeira e de dívida global. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, lidera a Iniciativa de Bridgetown com propostas relacionadas ao financiamento climático. Precisamos reformar os sistemas tributários globais, alterando as regras de mecanismos como a Análise de Sustentabilidade da Dívida do Banco Mundial e do FMI, que trata investimentos de longo prazo como despesas de curto prazo.

Mia Mottley, primeira-ministra de Barbados
Mia Mottley, primeira-ministra de Barbados e figura-chave por trás das propostas para uma nova arquitetura financeira global, em palestra na London Climate Week em junho (Imagem: Yui Mok / PA Images / Alamy)

A última seção do meu livro defende trazer os países do Sul Global ao centro do debate. É importante adotar uma abordagem orientada por objetivos, com foco real na implementação, como contratos justos, para que o financiamento do desenvolvimento seja tratado como uma missão, e não apenas uma lacuna a ser preenchida.

Você argumentou que os mercados são resultados de escolhas políticas, e não forças fora do controle do governo. Qual é o maior equívoco que os formuladores de políticas públicas ainda cometem ao pensar no papel do Estado na transição verde?

Em primeiro lugar, há uma ideia de que a função deles é consertar a bagunça que os mercados deixaram, em vez de moldar ativamente os mercados para alcançar resultados coletivos. Em segundo lugar, abordam a política industrial setor por setor, em vez de pensar em cada objetivo. No Reino Unido, o Departamento de Segurança Energética e Emissões Zero teve sucesso em seu trabalho, mas esse avanço é limitado sem uma abordagem interministerial e intersetorial para o objetivo da energia limpa. Não podemos ter um departamento resolvendo o problema das emissões enquanto outro as gera. E os formuladores de políticas públicas precisam conquistar a adesão das pessoas, e é aí que a cultura entra em cena.

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