Carmen Mardones se mudou para o Canal Chacao, na região central do Chile, aos 29 anos. Localizado entre as colinas de Quilpué, o bairro oferecia uma vida mais próxima da natureza com seus dois filhos pequenos: Kattya, de 4 anos, e Jorge, de 4. Catalina, a terceira filha, nasceu depois da mudança, em 1997.
Inicialmente, ela morava de aluguel. Com o passar dos anos, comprou uma casa e fez algumas reformas enquanto seguia trabalhando na cidade de Viña del Mar, vendendo peças automotivas em uma loja herdada do pai.
Então veio o grande incêndio de 2 e 3 de fevereiro de 2024 – o pior da história recente do Chile, com 138 pessoas mortas e 21 mil afetadas, segundo dados do governo. Mardones lembra bem daquele dia: a nuvem escura que pairava sobre as casas, o som das sirenes, as explosões nas tubulações de gás e a fumaça que tomava conta de tudo. Até o abastecimento de água potável foi afetado.
Ela evacuou a casa com o marido e a filha mais nova, tapando o rosto com toalhas úmidas, para se proteger da fumaça tóxica. Eles entraram no carro e, depois de um tempo, deixaram o fogo para trás.
Dias depois, quando as chamas cessaram, Mardones se dedicou a limpar os escombros, ouvindo o choro da vizinha do outro lado da rua. “Só queria parar de ver tudo destruído todos os dias”, disse ela. O que mais doía era “perder a história de cada família” naquele lugar. “Isso causa um dano imenso. Não deixa nenhuma esperança”.
A história dela é apenas uma de milhares que passaram por situações semelhantes nos últimos anos. Entre 2016 e 2022, quase 39 mil pessoas no Chile foram forçadas a deixar suas casas pela iminência de desastres naturais e eventos extremos. Os terremotos foram responsáveis por 41% desses deslocamentos, seguidos por incêndios florestais (30,8%), inundações (17,4%), temperaturas extremas (6,4%) e deslizamentos de terra (3,3%). Em janeiro deste ano, quase 50 mil pessoas foram evacuadas em questão de horas após incêndios florestais atingirem o sul do Chile, segundo dados do Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres.
No Canal Chacao, essa vulnerabilidade fazia parte do dia a dia. O bairro fica em uma área cercada por vegetação. Os incêndios de verão, disse Mardones, “eram relativamente normais”. Eles duravam cerca de uma hora, e os moradores sabiam exatamente o que fazer: Mardones ligava mangueiras e molhava o telhado até as chamas se apagarem.
O incêndio de 2024 trouxe uma nova e preocupante realidade: um tipo de fogo que não se apaga com facilidade, alimentado pelo vento e pela seca.
Preparação para o desastre
Em 2023, um ano antes do histórico incêndio, algumas pessoas já se preparavam para o desastre: elas fundaram a Associação Canal Chacao, grupo de prevenção contra incêndios nos bairros Canal Chacao, Villa Botania, Cumbres de Quilpué e Bello Horizonte — onde há 12,6 mil moradores em 1,4 mil residências.
Essa urgência vinha crescendo há anos. Em 2014, um incêndio na região de Valparaíso já havia afetado 12,5 mil pessoas e destruído 2,9 mil moradias. Desde então, as crescentes ondas de calor e os ventos fortes aumentam a pressão a cada verão.
Para Estrella Barrios, uma das 12 diretoras da associação, os sistemas oficiais de alerta precoce falharam da última vez. “Falta confiança nas autoridades, que deveriam nos proteger, mas não chegam a tempo”, disse ela.
Em um de seus últimos relatórios, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas especializado em ciência climática, explicou que as temperaturas estão subindo rapidamente na América Latina, levando a um aumento na frequência de secas e outros eventos climáticos extremos.
“A América Central e a América do Sul estão altamente expostas, vulneráveis e fortemente impactadas pelas mudanças climáticas”, afirmou o painel. A situação é “agravada pela desigualdade, pela pobreza, pelo crescimento populacional, pela alta densidade populacional, pela mudança no uso da terra (sobretudo o desmatamento, que acelera a perda de biodiversidade), pela degradação do solo e pela alta dependência das economias nacionais e locais dos recursos naturais para a produção de commodities”.
Os membros da Associação do Canal Chacao sabiam que precisavam agir logo. Em 2023, começaram a participar de sessões de treinamento organizadas pela Caritas Chile em parceria com a Corporação Nacional Florestal (Conaf) e a prefeitura de Quilpué. O programa de cinco meses se concentrou na compreensão do ambiente local – seus pontos fortes, riscos e vulnerabilidades –, bem como nos recursos disponíveis na comunidade.
A Conaf forneceu as informações mais técnicas: orientações legais, explicações sobre o que pode ser podado e detalhes sobre espécies protegidas. Com isso, os moradores montaram um centro de comando, equipado com um computador e uma impressora para o trabalho administrativo, além de ferramentas como roçadeiras, carrinhos de mão, ancinhos, aparelhos de comunicação por rádio e uma câmera para registrar suas atividades.
“As comunidades que se sentem amedrontadas e abandonadas pelo Estado muitas vezes querem combater o incêndio por conta própria”, explicou Andalucía Corvalán, especialista em gestão comunitária de riscos de desastres da Caritas Chile. “Parte do processo de transformação do projeto consistiu em explicar que o papel da comunidade também é a prevenção”.
Nos meses seguintes, o grupo colocou esses ensinamentos em prática. Em janeiro de 2024, eles limparam áreas com vegetação densa, construíram aceiros removendo a vegetação de zonas residenciais, pressionaram a prefeitura local a instalar tanques de água para umedecer áreas expostas a altas temperaturas e plantaram Carpobrotus chilensis, suculenta que atua como barreira natural contra incêndios. Os moradores ainda elaboraram um mapa comunitário de riscos para identificar, por exemplo, idosos e pessoas com mobilidade reduzida que precisariam de ajuda para evacuar.
Quando o incêndio chegou, essas ações ajudaram a salvar vidas. O desmatamento e a remoção da vegetação seca ajudaram a manter as estradas e vias de acesso abertas. Barrios disse que a comunidade também sabia que deveria ficar longe do incêndio, para não atrapalhar o trabalho dos bombeiros.
Em Canal Chacao, sete pessoas morreram nos incêndios. Já no bairro vizinho de Villa Independencia, os estragos foram bem maiores: cerca de 60 pessoas morreram. “O Chile tem uma grave carência de infraestrutura resiliente. Assim, quando chegou o grande incêndio, a população não tinha rotas de evacuação definidas. Em Canal Chacao, as pessoas conheciam a área e sabiam como ela funcionava”, observou Sofía Jacob, pesquisadora sobre deslocamento por desastres na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
Meses antes, a Associação de Canal Chacao havia encontrado um obstáculo em seu treinamento: eles tinham permissão para limpar o mato seco de áreas públicas, mas as áreas privadas próximas estavam fora de sua alçada. A casa de Carmen Mardones ficava ao lado de uma área verde de propriedade privada, e sua vizinha, Delia Uribe, octogenária e integrante da Associação do Canal Chacao, havia alertado sobre a necessidade de limpá-la. “Ela nos disse literalmente: ‘Se a floresta pegar fogo, vou morrer queimada’”, afirmou Barrios. A idosa foi uma das vítimas do incêndio.
Quando o incêndio chegou e se alastrou pela vegetação, Uribe se recusou a evacuar, optando por ficar com o marido, que já havia sofrido um derrame. Hoje, a Associação Canal Chacao se reúne em um centro de comando que leva o nome dela: Delia Uribe.
Convivendo com o fogo
Embora estivesse ciente do papel da associação, Mardones não conseguiu participar das sessões de treinamento em 2023. “O horário do varejo é bastante exigente”, explicou ela.
Para ela, sair dali foi a decisão correta, inclusive pelo desgaste psicológico. Nos dias após o incêndio, seu marido se recusava a deixar as ruínas de sua casa. Ele dormia dentro do carro, na garagem, e limpava os escombros todos os dias. “Eu tinha medo de que ele ficasse com traumas. Por isso, decidi ir embora e me mudar para longe”, disse ela sobre a decisão de se mudar para Limache, outra cidade na região de Valparaíso.
Para Jacob, da Flacso, os esforços comunitários, como os de Canal Chacao, podem ajudar a reduzir a desconfiança no trabalho de prevenção e o próprio deslocamento forçado. Essa situação, segundo ela, raramente é desencadeada por um momento específico, mas sim por um conjunto de fatores que se acumulam ao longo de meses ou anos. “Sem educação ambiental, não há resiliência”, afirmou.
No Canal Chacao, os moradores agora têm rádios portáteis conectados ao Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres e ao Corpo de Bombeiros. Eles acompanham de perto os dados meteorológicos para antecipar o comportamento dos incêndios. Dada a incerteza sobre a emissão de alertas precoces pelas autoridades, eles podem iniciar uma força-tarefa de evacuação por conta própria. “Se percebermos que a situação é grave, emitimos o primeiro aviso por meio de um grupo no WhatsApp formado por membros da comunidade e administrado pela Associação Canal Chacao”, explicou Barrios. Agora, eles esperam implementar um terceiro nível de alerta usando uma sirene de emergência. “Isso é o que ainda falta”, acrescentou Barrios.
Grande parte do desafio agora é financeiro: os recursos obtidos junto à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, usados para adquirir equipamentos básicos, já se esgotaram. “Eles interromperam o financiamento”, disse Barrios. O grupo busca novas fontes de financiamento e já teve alguns avanços — recentemente, compraram algumas motosserras, mas o drone é a próxima prioridade.
Mardones ainda tem razões para visitar o Canal Chacao. A casa que ela deixou para trás foi demolida e posteriormente reconstruída com o apoio da organização social Desafío Levantemos. Agora, esse é o lar de seus filhos Jorge, de 31 anos, e Catalina, hoje com 23.
“Agora está linda”, diz ela.
No entanto, ela ainda sente medo por seus filhos. Ela sabe que eles vivem com o fardo de que devem estar sempre preparados, sempre prontos; presos entre partir e ficar. “Antes, nunca sequer passou pela nossa cabeça que o Canal Chacao pudesse pegar fogo. Agora, acho que isso pode acontecer de novo”.



