A América Latina tem tudo para se tornar uma potência em energias renováveis. A região ocupa uma posição de destaque na geração solar e eólica e abriga algumas das maiores reservas globais de minerais críticos para a transição energética, como lítio e cobre.
Porém, muitos desses projetos têm gerado conflitos com comunidades locais, que denunciam ausência de consulta prévia, falta de transparência sobre impactos e indenizações insuficientes.
Bilhões de dólares estão sendo gastos na transição energética da América Latina. Mas como garantir que esses recursos cheguem a projetos de mineração com boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG)? E como assegurar que as comunidades mais vulneráveis da região sejam ouvidas e tenham acesso à energia renovável?
Uma peça-chave desse quebra-cabeça são os investidores chineses, grandes compradores de energia e minerais da região, que em muitos casos são financiados por instituições financeiras públicas de desenvolvimento (IFDs) da China.
Uma nova série de pesquisas coordenadas pelo Centro de Estudos da China e da Ásia-Pacífico da Universidade do Pacífico, no Peru, e pelo Centro de Políticas de Desenvolvimento Global da Universidade de Boston, nos EUA, mapeia essas relações e seus resultados na América Latina.
Os artigos concluem que as empresas chinesas podem ter um alto nível ESG, mas para isso precisam de normas claras e simples — ao contrário das complexas regras encontradas hoje, que muitas vezes criam brechas e mal-entendidos. Esses padrões podem ser estabelecidos tanto pelos governos da região quanto pelas instituições de financiamento.
Além disso, aproveitar o potencial da América Latina em energia renovável exige coordenação estreita entre governos e IFDs para estruturar projetos atraentes a investidores.
Financiamento chinês e cadeias verdes
Entre as IFDs globais, as chinesas têm liderado o financiamento de projetos de mineração na América Latina, como as centenas de milhões de dólares investidos na mina de cobre de Toromocho, no Peru.
Já os projetos de energia renovável têm atraído menos interesse das IFDs e sido financiados principalmente por bancos multilaterais, como o BID, muitas vezes utilizando bens e serviços de empresas chinesas. Um exemplo é um grande projeto solar do BID na Guiana, que adquiriu equipamentos de uma joint venture das chinesas Sumec e XJ Group.
As IFDs têm duas grandes vantagens no financiamento de cadeias de suprimentos que beneficiam comunidades e promovem a transição energética global.
Primeiro, as IFDs são instituições públicas voltadas ao desenvolvimento compartilhado que operam sob a lógica do “capital paciente”, ou seja, investem no longo prazo sem a pressão de ter lucros imediatos. Isso permite que empresas de mineração e energia tenham o tempo necessário para atender às mais variadas normas socioambientais da América Latina.
Bancos chineses já aplicam a lógica do capital paciente em projetos de desenvolvimento compartilhado na América Latina. Essa abordagem é crucial nos setores de mineração e energia renovável, que dependem da localização dos projetos e podem tanto gerar benefícios econômicos como conflitos socioambientais — ou ambos, dependendo de como são geridos.
Em segundo lugar, as IFDs chinesas normalmente delegam a supervisão dos padrões ESG aos países parceiros. Porém, as normas ESG variam muito na América Latina, gerando confusões e expectativas incompatíveis: enquanto investidores acreditam ter cumprido as exigências legais, as comunidades locais denunciam a falta de consultas adequadas.
Portanto, padrões ESG de IFDs que igualam ou superam as regulamentações locais podem garantir que as empresas saibam o que se espera delas em cada etapa do projeto.
As IFDs chinesas ainda estão elaborando seus próprios padrões ESG. Mas o governo chinês já tem as Diretrizes de Finanças Verdes, que orientam bancos a criar mecanismos de consulta prévia às comunidades e de transparência e compliance em projetos no exterior. Adotar essas medidas é essencial para que a transição energética na região seja, de fato, justa.
Obstáculos ao financiamento
Enquanto isso, as IFDs enfrentam dois grandes gargalos no financiamento de uma transição justa na América Latina: a defasagem tecnológica e a politização dos investimentos.
Embora as IFDs chinesas tenham potencial de impulsionar investimentos em energia renovável, sua participação no setor tem se limitado a tecnologias mais antigas, como as de hidrelétricas. Tecnologias como a solar e a eólica ainda são menos usuais em seus portfólios.
A presença chinesa no setor hidrelétrico latino-americano remonta a projetos iniciados há décadas atrás. O motivo é simples: as IFDs chinesas não têm estrutura para encabeçar projetos com tecnologias mais modernas, e muitos governos da região tampouco tomam essa iniciativa.
As IFDs globais também estão ficando mais politizadas, à medida que grandes potências disputam o controle de cadeias de comércio global. Com isso, elas têm se afastado das metas de desenvolvimento compartilhado para priorizar interesses domésticos em cadeias de minerais.
Por exemplo, a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos recentemente ofereceu um crédito de US$ 565 milhões à mina de terras raras Pela Ema, da Serra Verde, no Brasil. No entanto, a oferta veio sob a condição de que ela rompesse contratos com clientes chineses e vendesse apenas para empresas americanas ou aliadas.
Poucos dias depois, a China editou novas regras para impedir que multinacionais operando em seu território transferissem sua produção industrial para outros países.
Essas manobras geopolíticas prejudicam os países parceiros, que perdem poder de barganha e a capacidade de buscar seus próprios objetivos de desenvolvimento sustentável. Esses países também podem ser forçados a tomar partido entre China e EUA, como ocorreu na recente investida americana de criar uma “aliança de minerais críticos”.
Superar esses desafios exige mais coordenação entre governos e IFDs para desenvolver cadeias de suprimentos verdes que beneficiem as comunidades, inclusive por meio de portfólios de projetos de mineração e energia solar e eólica com padrões socioambientais mais modernos e sólidos. Assim, os países latino-americanos podem avançar rumo a um futuro mais promissor de energias renováveis e novas tecnologias.
