Às margens do rio Paraná, a comunidade argentina de Remanso Valerio ocupa um espaço onde a hidrovia avança em meio a barrancos argilosos. Ao longe, o vasto rio marrom é tomado por pequenas ilhas que parecem não ter fim.
A comunidade ribeirinha está localizada na cidade de Rosário, na província de Santa Fé. Nas últimas décadas, o município virou um importante centro de exportação agrícola. Cerca de 80% do comércio exterior da Argentina, incluindo grande parte da soja e do milho que abastecem os mercados globais, desce o Paraná a bordo de imponentes navios de carga rumo ao Atlântico.
Remanso Valerio — ou El Remanso, como também é conhecida na região — é uma das últimas comunidades urbanas de pesca artesanal da Argentina. Nas últimas décadas, ela precisou adaptar sua rotina ao fluxo das grandes embarcações que cruzam a hidrovia. Agora, os planos de dragagem do rio e o projeto de um grande empreendimento residencial ameaçam transformar a área, afetando um modo de vida que resiste há gerações.
As primeiras famílias da comunidade chegaram à região há aproximadamente 80 anos: elas atracaram seus barcos e nunca mais partiram. Esse grupo de “paisanos sérios” — imortalizados assim na canção Oración del Remanso, do cantor santafesino Jorge Fandermole — construiu uma relação tão forte com seu território que ela inclusive foi objeto de um estudo publicado em 2023 por pesquisadores da Universidade Nacional de Rosário.
Atualmente, a comunidade abriga cerca de 350 famílias. As casas construídas pelos próprios moradores no alto de barrancos são conectadas por ruas de chão batido que serpenteiam o terreno acidentado. Enquanto isso, as redes de pesca aguardam sob o sol ao lado dos barcos.





“O rio me deu tudo”, disse Jorge Marín, conhecido na comunidade como o “grande pescador”. Ele chegou a El Remanso há mais de 80 anos, filho de um dos primeiros colonos da região. De sua casa no alto do barranco, seus olhos se fixavam na água enquanto observava a passagem dos navios. “Daqui, vejo como os navios levam embora todas as nossas riquezas”, lamentou.
Marín, uma das vozes mais antigas e respeitadas da região, morreu no fim de maio. Suas palavras refletem os desafios que a comunidade enfrenta.
Desde a década de 1990, as constantes dragagens para a hidrovia Paraguai-Paraná permitiram a passagem de navios cada vez maiores, consolidando Rosário como um importante ponto de exportação.
Essa transformação teve um custo para o próprio rio, segundo os pescadores. A dragagem pode acelerar a erosão e tornar os ecossistemas aquáticos menos resilientes. Manuel Díaz, um pescador veterano de El Remanso, vai direto ao ponto: “Antes, lançávamos a linha e pescávamos entre cem e duzentas bogas. Agora, se tiver sorte, você pega um peixinho”.


Em junho de 2026, a empresa belga Jan De Nul renovou sua concessão de operação da hidrovia, incluindo novas obras de dragagem em seu contrato, com vigência até 2051. Especialistas alertam que tais intervenções podem alterar ainda mais a dinâmica natural do rio, afetando a reprodução dos peixes e acelerando a erosão das margens. Críticos também questionaram a qualidade dos estudos de impacto ambiental realizados até o momento.
Nem a Jan De Nul, nem a Agência Nacional de Portos e Navegação da Argentina responderam aos questionamentos da reportagem. Um relatório do governo publicado em novembro de 2025 afirmou que as normas ambientais estão sendo cumpridas e que os impactos ambientais estão sendo minimizados.
O Dialogue Earth conversou com Cecilia Reeves, do Taller Ecologista, organização ambientalista com sede em Rosário: “Estamos transformando o Paraná – sistema vivo e complexo – em uma via fluvial retilínea e uniforme. [Para as comunidades pesqueiras,] o rio não é uma rota de transporte. É seu lar e fonte de alimento”.



A comunidade também está passando por uma mudança significativa com a chegada do projeto Parque de la Cabecera, que propõe a construção de 2,5 mil moradias para cerca de 15 mil pessoas, além de novos campos esportivos, um centro cultural e “espaços públicos de alta qualidade”. O governo está finalizando os documentos de licitação, em um processo voltado para incorporadoras privadas.
O empreendimento inclui a área de Remanso Valerio. Segundo análises, cerca de 70 famílias precisariam ser realocadas. Em meio às negociações, pelo menos duas famílias podem ter assinado acordos de realocação, segundo informações da imprensa local.
Os planos preocupam os pescadores mais antigos. “Cresci aqui, esta é minha vida, e não consigo me imaginar morando em outro lugar”, disse Díaz. “Com o rio, alimentamos nossos filhos e netos”.
Carlos Rubén Caballero, de 42 anos, pesca nessas águas desde os 8 anos. Enquanto fala, suas mãos desembaraçam sua rede de 300 metros: “Essa novidade que estão trazendo foi mantida em segredo… no começo, as pessoas ficaram com medo [de serem desalojadas]… mas ainda estamos aqui”.
Com o projeto, o ministro argentino de Obras Públicas, Lisandro Enrico, prometeu uma “verdadeira transformação urbana e social” para os moradores da região.


Agustina Olmos, de 26 anos, é filha e neta de pescadores. Ela disse estar aberta à possibilidade de realocação, mas não para uma área totalmente nova: “Se me derem a chance de me realocar, me realocarei, mas não vou sair daqui”.
Essas tensões com grandes empreendimentos se repetem em comunidades ribeirinhas e costeiras de todo o mundo.
Os pescadores de Remanso Valerio temem perder não só a memória da comunidade, mas também a continuidade de uma relação profunda com um rio que moldou formas de trabalho, laços sociais e um conjunto de conhecimentos ao longo de gerações.


