A transição energética transformou minerais como cobre, lítio e níquel em ativos estratégicos para as economias globais, que agora dependem de um abastecimento contínuo e estável desses recursos.
A América Latina concentra algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos. O Chile e o Peru respondem por cerca de 40% das reservas de cobre. A Argentina, a Bolívia e o Chile abrigam mais da metade das reservas conhecidas de lítio, metal usado na fabricação de baterias elétricas e sistemas de armazenamento de energia.
Em um mundo marcado pela corrida entre a China e os EUA para garantir o abastecimento de vários desses recursos estratégicos, a estabilidade da produção de minérios na América Latina é crucial.
A história nos mostra que o crescimento econômico atrelado à exploração de recursos naturais nem sempre se traduz em desenvolvimento sustentável. A América Latina já passou por vários ciclos de boom de exportações, caracterizados pela abundância de recursos, instituições fracas e territórios fragmentados. Em muitos casos, o resultado foi um crescimento econômico sem o devido fortalecimento institucional, deixando comunidades expostas a desigualdades, pressões ambientais e conflitos constantes.
A América Latina está pronta para aproveitar essa oportunidade?
Sucesso medido por governança, não geologia
O debate não deve se resumir ao volume de minerais que a região pode extrair, mas como isso será feito.
O abastecimento responsável, sustentável e estável de minerais significa ter regras claras, instituições capazes de aplicá-las e mecanismos eficazes para administrar os impactos socioambientais. Isso significa oferecer benefícios econômicos que se traduzam em oportunidades reais para as comunidades e melhorias tangíveis nos territórios.
Nos últimos anos, vários países deram passos importantes nessa direção: o Chile reforçou seus padrões ambientais e sistemas de avaliação ambiental; o Peru desenvolveu mecanismos de participação civil e sistemas de rastreabilidade para minerais estratégicos; e a Colômbia criou marcos regulatórios que buscam equilibrar o investimento em mineração com a proteção ambiental.
Grandes projetos extrativistas seguem gerando diversos conflitos na região. No caso peruano, mais da metade dos conflitos tem um componente ambiental, segundo dados recentes da Defensoria Pública do país. A mineração é a subcategoria mais citada. Isso mostra a dificuldade política de tomar decisões legítimas e sustentáveis.
Para evitar esses conflitos, é necessário construir ou fortalecer instituições capazes de antecipar essas disputas. Isso pode garantir consultas populares confiáveis e o cumprimento de normas ambientais. Também pode ajudar a tornar os benefícios mais palpáveis para a população.
A transição energética também está redefinindo a relação entre os países produtores e as grandes potências.
Os EUA buscam reduzir a dependência de fornecedores que consideram estrategicamente sensíveis e fortalecer as cadeias de abastecimento em ambientes politicamente confiáveis. A China, por sua vez, tem frequentemente combinado financiamento, investimento em infraestrutura e acordos comerciais de longo prazo como parte de sua estratégia para garantir o acesso a matérias-primas.
Na última década, empresas chinesas aumentaram sua presença em projetos de mineração, portos e redes de eletricidade em países como Peru, Chile e Argentina. Isso revela uma estratégia bem montada para garantir o acesso a recursos críticos.
Ao mesmo tempo, essa dinâmica levou muitos países latino-americanos ao centro de disputas geopolíticas. As decisões sobre mineração, energia e infraestrutura não são meramente econômicas, são estratégicas e afetam a posição dos países no sistema global. A capacidade dos Estados de fiscalizar e regulamentar projetos críticos hoje é um componente central da governança econômica e territorial.
O porto de Chancay, no Peru, inaugurado em novembro de 2024, teve por trás um grande investimento chinês. O projeto acendeu discussões sobre o papel de autoridades, os benefícios concedidos às empresas envolvidas e o grau de fiscalização estatal. A preocupação não é o investimento estrangeiro em si, mas se o Estado peruano terá capacidade de fiscalizar essas operações.
Enquanto isso, a crescente concentração da distribuição elétrica em Lima nas mãos de uma operadora estrangeira levanta questões sobre segurança energética. Trata-se de reconhecer que a governança desses ativos se tornou uma questão estratégica.
Resposta à corrida global
Outra dimensão que começa a se tornar evidente é a necessidade de pensar como uma região. Nenhum país latino-americano, por si só, tem peso suficiente para influenciar mercados globais de minerais críticos ou definir padrões ambientais internacionais. Mesmo os maiores produtores — como o Chile e o Peru no caso do cobre, ou o Brasil no caso do ferro e do níquel — representam apenas uma fração do mercado mundial. Eles também dependem de cadeias de abastecimento fora da região, sobre as quais têm influência limitada.
No entanto, a coordenação regional enfrenta limites óbvios. As economias latino-americanas competem entre si para atrair investimentos, os marcos regulatórios são muito distintos e as prioridades nacionais muitas vezes prevalecem sobre qualquer tentativa de ação coletiva. Pensar como uma região é economicamente racional, mas politicamente difícil. Mesmo assim, é uma discussão que a região não pode mais adiar se quiser continuar relevante no novo cenário energético.
Se a América Latina está pronta para fornecer minerais ao mundo, isso não depende apenas de geologia ou demanda internacional, mas de algo mais fundamental: a capacidade dos países de administrar seus recursos de forma eficaz ao longo do tempo.
Pensar como uma região é economicamente racional, mas politicamente difícil
A região possui os recursos, a experiência e o conhecimento técnico. O que falta, em muitos casos, é o alinhamento entre as capacidades institucionais e a vontade política para administrar essa riqueza com estabilidade, legitimidade social e responsabilidade ambiental.
O desafio, portanto, não é apenas produzir mais minerais, mas administrá-los melhor. O papel da América Latina como fornecedora de recursos estratégicos pode aumentar nas próximas décadas. Agora, os países da região devem decidir se essa corrida por minerais críticos se transformará em desenvolvimento sustentável ou apenas em um boom temporário de matérias-primas.
