Clima

20 anos de Dialogue Earth: nosso trabalho não vai recuar

Enquanto o jornalismo é pressionado por diversos fatores e forças externas, seguimos empenhados em trazer uma cobertura de excelência sobre o meio ambiente e o clima no Sul Global
<p>Áreas úmidas em Bahia Adahir, área com grande biodiversidade no Golfo da Califórnia, em Sonora, México (Imagem: Airbus via Google Earth)</p>

Áreas úmidas em Bahia Adahir, área com grande biodiversidade no Golfo da Califórnia, em Sonora, México (Imagem: Airbus via Google Earth)

Duas décadas atrás, o jornalismo ambiental era encarado como um mundo à parte das demais editorias jornalísticas. As reportagens sobre clima, água e biodiversidade eram tratadas de forma distinta daquelas sobre política, economia, migração, saúde e conflitos. A hierarquia nas redações não deixava dúvidas sobre o que era considerado mais importante: se fosse necessário remover uma chamada na capa de um jornal, seria a da matéria de meio ambiente.

Quando o China Dialogue foi fundado em 2006, uma de suas ideias centrais era entender o papel da China no debate global sobre o meio ambiente. O país estava mudando a uma velocidade extraordinária, e o que acontecesse ali teria consequências muito além de suas fronteiras. Um artigo daquele ano resumiu isso perfeitamente: “As mudanças climáticas afetarão a China, e a China afetará as mudanças climáticas”.

Screenshot of china dialogue website in 2016
Site do China Dialogue em junho de 2006

A frase continua valendo — e hoje talvez seja ainda mais relevante. A China é a maior emissora de gases de efeito estufa do mundo e a maior consumidora de energia, mesmo em meio a uma ambiciosa transição energética. O país espera atingir seu pico de emissões de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060. 

Em 20 anos de cobertura, aprendemos que as pautas ambientais e climáticas têm uma forte intersecção com vários outros assuntos.  

No início do mês, um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirmou que ultrapassar o limiar de 1,5 °C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais já é “considerado inevitável”. Durante anos, esse foi o teto convencionado por cientistas para evitar os piores impactos da crise climática. 

As mudanças climáticas não são mais aquele risco abstrato de algo que pode ocorrer no futuro.

Elas estão aqui — e já afetam as pessoas, as economias e os ecossistemas. 

A transição para longe dos combustíveis fósseis, grandes catalisadores do aquecimento global, é uma história sobre controle de emissões de gases de efeito estufa. É uma história sobre lítio e cobre na América do Sul; a indústria chinesa; a política industrial europeia; a demanda do Sul da Ásia e as cadeias de abastecimento do Sudeste Asiático e da África. 

A própria transformação das matrizes energéticas também é repleta de nuances. A extração de minerais críticos para as tecnologias de transição impacta comunidades e ecossistemas; e os data centers esgotam recursos hídricos valiosos. O mercado de trabalho muda e os meios de subsistência e modos de vida são alterados. O meio ambiente vai da macroeconomia até a rotina da casa. Dos gases na atmosfera ao calor sentido no corpo. 

Uma enchente catastrófica no Himalaia, no Nepal e no Tibete tem tanto a ver com chuvas, geleiras, rios e energia hidrelétrica quanto com dinheiro público, sistemas de alerta, migração e reconstrução. Quando falamos em aumento das temperaturas, falamos de saúde, trabalho digno e resiliência urbana. 

O China Dialogue cresceu e se tornou uma família de publicações: The Third Pole, Diálogo Chino e China Dialogue Ocean. Em 2024, essas quatro marcas viraram uma só: o Dialogue Earth, um único site com conteúdo em oito idiomas. 

As próprias reportagens exigiam uma intersecção maior entre regiões. As políticas energéticas da China repercutiam nas relações com a América Latina, a África e o Sul da Ásia. As alterações em um rio no Himalaia podiam virar, ao mesmo tempo, uma matéria sobre clima, energia e geopolítica. As perturbações nos oceanos afetavam a produção de alimentos e as cadeias globais de abastecimento.

O Sul Global muitas vezes é tido como a principal vítima das crises climática e ecológica, mas também pode ser o lugar do mundo a partir do qual essas mudanças são compreendidas. São países com cidades em expansão, implementação de novas tecnologias e decisões complexas sobre desenvolvimento socioeconômico e clima.

Essas são as mudanças que o mundo enfrenta à medida que o Dialogue Earth completa 20 anos. 

O mercado jornalístico também passa por uma mudança. 

A disputa pela atenção do público se acirrou. O último estudo do Instituto Reuters sobre cobertura climática constatou que o interesse por esse tipo de notícias ainda é bastante alto, mas o número de pessoas que as consumiram está caindo, de 55% em 2023 para 47% em 2025. Em outras palavras, o jornalismo climático se tornando menos presente nos espaços onde as pessoas consomem suas informações.

Por trás disso, há interesses políticos, demandas comerciais, algoritmos e desinformação. Se o alcance do jornalismo diminui, outros ocupam esse vácuo. Muitas vezes é apenas ignorância; outras, negacionismo climático. 

O Dialogue Earth não vai abandonar seu espaço na cobertura jornalística.

A gente vai seguir trazendo as histórias diretamente dos lugares onde há mudanças em curso. Olharemos não apenas para os governos, mercados e sistemas globais, mas também para o que ocorre em menor escala, nas comunidades. Divulgaremos o conhecimento independentemente de fronteiras e idiomas. Levaremos as experiências locais para as discussões globais e as conversas globais para aqueles que sentem diretamente suas consequências.

Não deixaremos de mostrar as diferentes nuances em nossas histórias. Quando falamos em “diálogo”, não significa que todos concordam com o que se diz; mas sim, que a mensagem de uma parte do mundo pode ser compreendida em outra. 

Queremos comemorar nosso 20º aniversário olhando para o futuro. 

A partir de amanhã, o Dialogue Earth publicará, ao longo de cinco meses, uma série de artigos e ensaios de pensadores e especialistas de vários continentes e áreas do conhecimento. São autoridades em ciência climática, políticas públicas, geopolítica, ativismo, justiça ambiental, literatura e artes. Elas não oferecerão uma resposta única às crises globais. Esse, aliás, é o principal ponto: as mudanças climáticas e ecológicas moldam nossas vidas de tantas formas que uma única área de atuação, uma única região geográfica ou uma única visão não seriam suficientes. 

Esperamos que esses textos tragam algo que sempre foi fundamental para o Dialogue Earth: o encontro entre diferentes tipos de conhecimento. 

Há 20 anos, o jornalismo ambiental precisava defender a importância do meio ambiente. A tarefa agora é outra: ele deve enxergar as mudanças climáticas e ambientais como um elemento central de nosso tempo, com impactos não só na economia e na política, mas também na desigualdade e nas condições de vida das populações. Nossa série de artigos é uma forma de tentar compreender esse mundo em constante transformação.

Que venham outros 20 anos e muito mais, porque o Dialogue Earth não vai abandonar esse espaço.

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