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Chefia militar dos EUA entra em projeto de terras raras no Brasil

Investimento do Departamento de Guerra em mina no interior de Goiás reforça busca por minerais estratégicos para indústria militar
<p>Mina de amianto perto de Minaçu, estado de Goiás. Nos últimos dois anos, a economia da cidade vem trocando o amianto pela extração de terras raras em mina da Serra Verde (Imagem: Christian Tragni / Süddeutsche Zeitung Photo / Alamy)</p>

Mina de amianto perto de Minaçu, estado de Goiás. Nos últimos dois anos, a economia da cidade vem trocando o amianto pela extração de terras raras em mina da Serra Verde (Imagem: Christian Tragni / Süddeutsche Zeitung Photo / Alamy)

Em 1939, o Congresso dos Estados Unidos definiu os “minerais críticos” como os materiais necessários para suprir as necessidades militares e industriais diante de uma emergência nacional.

Esse conceito mudou bastante desde então. Nas últimas décadas, o foco da conversa passou para a transição energética: minerais críticos viraram os elementos necessários para o funcionamento de turbinas eólicas, carros elétricos e baterias elétricas, entre outros. Agora, o governo dos Estados Unidos está empenhado em recuperar o sentido original da expressão.

No fim de agosto, o Departamento de Guerra dos EUA investiu US$ 750 milhões na compra de parte de uma mina de terras raras da Serra Verde, mineradora brasileira que opera em Minaçu, no interior de Goiás.

A Serra Verde produz disprósio, térbio, neodímio e praseodímio, quatro dos 17 elementos conhecidos como terras raras. Cerca de metade do suprimento global de terras raras vai para a fabricação de ímãs permanentes, usados em turbinas eólicas e veículos elétricos, mas também em aviões de caça, mísseis e drones.

A transição energética global agora disputa recursos, matérias-primas e investimentos com a indústria militar. 

“Os minerais críticos surgiram em tempos de guerra”, explicou Phil Johnstone, pesquisador no Laboratório de Transições Profundas da Universidade de Sussex, no Reino Unido. “[As metas de sustentabilidade surgiram] em uma época em que o mundo parecia buscar a paz. Mas isso mudou. Eventos inimagináveis há alguns anos estão acontecendo”.

Terras raras do Brasil

A produção comercial de terras raras no Brasil começou em 2024 no depósito de Pela Ema, explorado pela Serra Verde. A empresa tem a meta de produzir 6,4 mil toneladas anuais de óxido de terras raras até o fim de 2027. A mineradora afirma ser pioneira na produção em grande escala de quatro terras raras fora da Ásia. 

O Departamento de Guerra dos EUA anunciou que o investimento milionário de sua Unidade de Defesa Econômica faz parte da compra da Serra Verde pela USA Rare Earth, por US$ 1,55 bilhão. “Essa parceria estratégica estabelecerá uma cadeia de suprimentos segura para elementos de terras raras essenciais à defesa nacional e à segurança econômica”, afirmou a pasta.

O que são terras raras e por que são estratégicas?

As terras raras reúnem 17 elementos com propriedades químicas e físicas semelhantes e incomuns, essenciais para várias tecnologias modernas. Suas reservas globais estão estimadas em 110 milhões de toneladas, segundo o Serviço Geológico dos EUA.

Metais como gadolínio são usados em reatores nucleares, enquanto o escândio, em células de combustível de veículos. Parte das terras raras integra os chamados minerais críticos para a transição energética, com insumos como o lítio, essencial para baterias de veículos elétricos, e o níquel, usado na produção de aço inoxidável.

O interesse da Casa Branca nas terras raras demonstra uma preocupação dos EUA com a própria segurança. Nas últimas duas décadas, a China firmou sua posição no processamento de minerais críticos, concentrando 91% da produção global de terras raras refinadas e 94% dos ímãs permanentes sinterizados (componentes usados em motores ultrapotentes de turbinas eólicas e sistemas de defesa). 

Para Washington, que depende de ímãs e outras tecnologias chinesas para seus equipamentos militares, o domínio de seu principal rival geopolítico e econômico sobre essa cadeia de suprimentos cria uma vulnerabilidade estratégica.

Para os países latino-americanos, o novo apetite dos EUA por seus recursos naturais cria um dilema: a Casa Branca, sob o presidente Donald Trump, mostrou-se disposta a intervir diretamente na vizinhança, como visto no caso da Venezuela em janeiro; por outro lado, a China continua sendo um parceiro comercial fundamental para a maior parte da região. Achar o equilíbrio entre as duas potências tem sido cada vez mais desafiador.

O governo Trump também pressiona os países da região e suas instituições quando considera que os investimentos chineses podem ter uma finalidade militar. Essa foi uma preocupação no caso do Panamá, onde a justiça local declarou inconstitucionais os contratos de gestão portuária detidos por uma empresa de Hong Kong. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a China poderia usar o Canal do Panamá contra os Estados Unidos em caso de conflito.

Juan Enrique Serrano, professor especializado nas relações América Latina-China na Universidade do Chile, alertou para o efeito dessas dinâmicas sobre a política interna em toda a América Latina: “Há um cenário improvável, mas possível, no qual os EUA podem argumentar que as exportações de lítio do Chile para a China têm finalidade militar, porque um grama do mineral acaba em algum computador de última geração em um avião”. Atualmente, o Chile é o maior produtor de lítio da América do Sul.

Preocupações ambientais

Para os ambientalistas, o crescente interesse militar em minerais associados à transição energética também gera preocupações. 

Embora organizações como o Greenpeace defendam que a demanda desses minerais seja reduzida para limitar os danos ambientais, há uma noção de que essa mineração ainda é necessária em alguma medida.

A própria Serra Verde afirma que não utiliza técnicas de mineração intensivas ou produtos químicos tóxicos, o que faz com que suas operações tenham “impactos ambientais menores”. Porém, o uso desses minerais para fins militares pouco colabora com a transição energética. 

“Esse complexo emergente de minerais para uso militar é o oposto de uma solução climática. Pelo contrário, ele acelerará nossa queda rumo à catástrofe climática”, afirmou a organização Global Witness.

Pesquisas sugerem que as 7,5 mil toneladas de cobalto e as 50 mil toneladas de grafite que o governo dos EUA planeja estocar para fins de defesa poderiam ser usadas para produzir cem mil ônibus elétricos.

Tropas americanas sobrevoam Mar do Caribe, setembro de 2025
Tropas americanas sobrevoam Mar do Caribe, setembro de 2025. Sob Trump, os EUA têm se mostrado dispostos não só a intervir pela força na América Latina, mas também a garantir matérias-primas para sua estratégia militar (Imagem: Benjamin Applebaum / Chairman of the Joint Chiefs of Staff, CC BY)

O Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento alertou que as projeções de demanda baseadas apenas na transição energética estão subestimando a demanda total por minerais críticos. Na prática, isso representa uma intensificação na corrida por esses recursos.

Busca por novos marcos regulatórios

Para Phil Johnstone, da Universidade de Sussex, os marcos globais de sustentabilidade estão despreparados para lidar com o momento atual: “Todos eles se baseiam em uma versão do mundo na qual a sustentabilidade era o principal objetivo comum. Eles não foram concebidos para a disputa geopolítica”.

Proteger a transição energética dos interesses militares vai exigir cooperação global e novos marcos regulatórios. É o que defende uma carta aberta endereçada à ONU em julho, com as assinaturas de mais de cem organizações sociais.

“Há uma grande demanda por terras raras, mas como priorizá-la? Precisamos de regulamentações rigorosas, marcos jurídicos sólidos e algum tipo de referência institucional para orientar essas decisões, pois, do contrário, vira um terreno sem lei”, afirmou Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, nos EUA.

Em setembro, o Brasil sancionou seu marco legal para minerais críticos, focado na expansão da produção e do processamento nacionais. Também foi criado o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. 

Luciano de Almeida Freitas, consultor jurídico do escritório de advocacia americano Carlton Fields, escreveu em um artigo que a nova lei abre caminho para que o Brasil fiscalize investimentos do exterior, como o da Serra Verde. Porém, ele também observou que o país ainda precisa desenvolver sua capacidade de processamento. “A mineração é apenas o primeiro passo”, afirmou. “Há uma diferença entre soberania de recursos e soberania industrial”.

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