Clima Manuel Pulgar-Vidal: Devemos enxergar a crise global com outro olhar À medida que as instituições se enfraquecem e a cooperação global se fragmenta, um dos arquitetos do Acordo de Paris defende que o movimento ambientalista reformule sua forma de encarar a crise global Português Português Español English Compartilhar a matéria × Copy link to page Copy link to page × Republicar esta matéria Você pode republicar os textos do Dialogue Earth sob a licença Creative Commons. Por favor, confira nossa política de republicação. Manuel Pulgar-Vidal (Ilustração: Vipin Sketchplore / Dialogue Earth; Imagem original: WWF) Manuel Pulgar-Vidal Setembro 23, 2026Setembro 23, 2026 O futuro ambiental do planeta não anda em linha reta. É provável que a próxima década traga grandes desafios: enfraquecimento de instituições, multilateralismo sob pressão e um cenário geopolítico que, mais uma vez, coloca os combustíveis fósseis e os minerais críticos no centro das disputas de poder. Porém, também será uma década para estabelecer as bases de uma transição energética mais eficaz e resiliente, desde que mudemos a forma de enxergar o problema. Por que Manuel Pulgar-Vidal? Poucas pessoas observaram a evolução da governança ambiental global a partir de tantos ângulos diferentes. Como ministro do Meio Ambiente do Peru e presidente da COP20 em Lima, em 2014, Pulgar-Vidal esteve no centro das negociações climáticas no ano prévio ao Acordo de Paris. Hoje, ele é o líder global de clima e energia no WWF. Sua experiência no governo peruano, em negociações multilaterais e na sociedade civil confere peso especial à questão central deste ensaio: se a arquitetura ambiental construída nas últimas décadas está enfraquecendo, o que deveria substituí-la? É essa dupla perspectiva — pessimismo no curto prazo, aliado à possibilidade real de reconstrução no longo prazo — que desejo explorar aqui. O caminho a seguir não está em abandonar o multilateralismo ou nos resignarmos a essa divisão, mas sim em reconstruir o diálogo a partir de uma nova perspectiva. Enfraquecimento das instituições Comecemos pelo que está em marcha nas estruturas que regem a agenda ambiental. Especificamente na América Latina, os ministérios ou secretarias do meio ambiente – a arquitetura institucional considerada o centro da gestão ambiental – foram fundidos, extintos ou reduzidos. Quanto mais descemos na hierarquia governamental, do nível nacional para os níveis regional e local, mais sombrio se torna o quadro: menos capacidade, menos recursos, menos margem de ação. O futuro do planetaPara marcar o 20º aniversário do Dialogue Earth, esta série de ensaios reúne as palavras de pensadores e ativistas reconhecidos mundialmente. São autoridades de diferentes continentes, áreas de atuação e trajetórias de vida. Juntas, suas perspectivas representam algumas das forças que moldam nosso mundo e os futuros que podem surgir a partir delas. Parte disso é uma ofensiva política. Mas também falta uma autocrítica: essas instituições nunca conseguiram se firmar nos verdadeiros centros de poder, como os ministérios da Fazenda e da Infraestrutura ou nos gabinetes presidenciais. Essa distância diminuiu sua relevância. A Europa já está começando a corrigir essa falha ao unir os temas de mudanças climáticas, energia e produção em uma única pasta, pois reconhece que essas três questões formam parte de um mesmo problema. É um caminho que a América Latina deve acompanhar de perto. Somada a essa fragilidade institucional, há uma corrida geopolítica implacável por recursos naturais. Os minerais críticos necessários para as tecnologias da informação coexistem com um apetite renovado por combustíveis fósseis, exacerbado pelas crises no Irã e na Ucrânia, que elevaram os preços do petróleo e do gás e tornaram sua extração e transporte mais difíceis. Iniciativas como o esforço da Colômbia para abandonar os combustíveis fósseis ou o mapa do caminho do Brasil são passos na direção certa, mas ainda modestos: as instituições financeiras ainda estão longe de se tornar o principal impulsionador dessa necessária mudança. Por trás de tudo isso há uma crise mais profunda: a do próprio multilateralismo. Fizemos avanços significativos no combate às mudanças climáticas por meio do Acordo de Paris e na proteção da biodiversidade por meio do Marco Global de Kunming-Montreal. No entanto, o engajamento vem diminuindo sob a pressão de governos de extrema direita e negacionistas climáticos, que desmontam suas próprias estruturas científicas e institucionais e acusam o multilateralismo de ser lento e ineficaz — acusação profundamente equivocada, mas que já ganhou força. Enquanto isso, as evidências da crise planetária seguem se acumulando: ondas de calor e incêndios florestais, um “super” El Niño e o aumento dos deslocamentos forçados. O sistema financeiro deve transformar esse impulso em algo estável e duradouro Também há uma exclusão tecnológica que reproduz as mesmas desigualdades que causaram a crise: o desenvolvimento de tecnologias limpas continua concentrado no Norte Global e, em alguns casos, os próprios países do Norte Global ou economias emergentes vendem tecnologia obsoleta ao Sul Global. Ainda assim, as inovações reais estão em andamento. Os preços energia solar e eólica caíram e essas fontes estão sendo implementadas em um ritmo cada vez mais acelerado. Já vemos os primeiros passos em direção aos combustíveis sintéticos, e alguns setores, como a indústria marítima, estão convertendo suas frotas. Acredito que, com o tempo, ficará evidente que as ações climáticas foram a estratégia correta. Concluo esta análise com três frentes raramente mencionadas juntas, mas profundamente interligadas. A desinformação, que se tornou a regra e não a exceção, atinge em cheio uma geração jovem que cresce com essas tecnologias. Em seguida, o desprestígio da ciência e a tentativa de impor agendas políticas que prejudicam a capacidade de tomada de decisão de órgãos como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, justamente em um momento em que todas as suas previsões – mesmo as mais severas – vêm se concretizando. E, em terceiro lugar, a perda do espaço cívico, com crescentes ataques às organizações da sociedade civil. Não se pode esquecer: essas organizações foram as principais arquitetas do atual marco ambiental. Tudo isso acontece em um mundo que virou as costas para a cooperação global. As questões ambientais, que exigem colaboração, são prejudicadas sempre que a geopolítica se fecha sobre si mesma. Novas lentes para enxergar o mesmo mundo Diante desse panorama, a questão que mais me interessa não é quão grave é a crise — já sabemos disso —, mas por quais lentes vamos enxergá-la a partir de agora, pois as lentes que usamos até aqui nos deixaram com uma visão limitada. A primeira perspectiva diz respeito ao multilateralismo. Não acredito que devamos abandoná-lo. Ele continua sendo, com todas as suas limitações, a forma mais legítima de tomada de decisão coletiva. O que está em crise é sua hierarquia vertical de cima para baixo. É por isso que me agrada a ideia apresentada pelo Brasil para a COP31 de uma abordagem de duas vertentes: uma delas é fortalecer o sistema atual de negociações e consensos globais; a outra é criar um modelo paralelo com uma estrutura de baixo para cima, composto por novos processos, coalizões e alianças que não dependam apenas do consenso entre os Estados. A segunda perspectiva é a econômica. Precisamos continuar fortalecendo a ideia de que o mundo está caminhando – lentamente, mas não para trás – em direção a uma economia que prioriza, acima de tudo, o clima e a biodiversidade. Em um momento em que a política abandonou em grande parte esse debate, cabe à economia assumir o comando. Dentro da economia, um ator – o setor financeiro – ainda não reconheceu seu papel. A tecnologia, a ciência, a governança e a sociedade civil já estão caminhando na direção certa, mas é o sistema financeiro – fundos de investimento, proprietários de ativos, bolsas de valores – que deve transformar esse impulso em algo estável e duradouro. Ainda não conseguimos fazer com que o setor financeiro atue como se espera, mas sabemos, com cada vez mais clareza, o que precisa ser feito para chegar lá. A terceira perspectiva é sistêmica. Precisamos parar de tratar as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a crise hídrica, a saúde ambiental e a poluição por plástico como questões isoladas. Devemos exigir que nossas instituições, nossos marcos normativos e nossos planos climáticos nacionais adotem uma abordagem sinérgica, na qual uma única ação tenha efeitos positivos em várias frentes ao mesmo tempo. LEIA MAIS A quarta perspectiva é a da ciência e da informação. Em uma era de crescente incerteza climática — em que até mesmo os meteorologistas têm mais dificuldade em antecipar fenômenos que antes eram previsíveis —, a ciência continua sendo o que temos de mais próximo de uma bússola confiável. Fortalecê-la e ganhar terreno contra a desinformação não são prioridades secundárias. São pré-requisitos para que as outras três perspectivas funcionem. Nenhuma dessas quatro perspectivas é suficiente por si só. Mas, combinadas, elas começam a traçar um caminho distinto daquele que seguimos até agora: um multilateralismo reconstruído a partir do zero, uma economia que torne as considerações climáticas um pré-requisito para a competitividade, um sistema de governança que deixe de fragmentar os esforços para enfrentar a crise planetária e uma ciência fortalecida contra a desinformação. Ainda acredito que os próximos cinco ou dez anos serão difíceis e que seria ingênuo prometer o contrário. Mas também estou convencido de que já sabemos, com um grau razoável de precisão, quais peças ainda nos faltam para garantir que a próxima década seja diferente desta. A pergunta que devemos nos fazer, em todas as mesas de negociação, em todos os ministérios da Fazenda e em todos os conselhos de investimento, é simples: como podemos garantir que toda essa pressão, em vez de nos destruir, finalmente nos proporcione a energia estável que buscamos há duas décadas? Continue lendo Reportagem Impactos climáticos Sem eletricidade, haitianos convertem árvores frutíferas em carvão Reportagem Mercados de carbono Após sucesso na Índia, modelo de mercado de carbono chega ao Rio Reportagem Mercados de carbono Sul Global trará uma solução para os mercados de carbono? 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